Walmir Alexandre tinha 52 anos e seus pés já davam sinais de cansar de andar sobre a terra que nunca o quis. Nunca conheceu de verdade pai e mãe: a mãe era uma moça empregada de um hotel que, em 1975, engravidou de um homem casado — não por amor, disseram os parentes, mas por pecado. E ele, Walmir, era a prova vivente desse pecado.
“Um erro”, bastardo, bastardo, chamavam-no na costas. “Um exemplo de vergonha que atravessa gerações.” Os tios, as tias, os primos que nem sabia o nome — todos olhavam para ele com os olhos fechados de desprezo. Como se ele tivesse escolhido ser nascido assim. Como se ele tivesse pedido para ser o filho proibido, o quebra-cabeça que a família tentava esconder em quartos traseiros, em escolas longe, em conversas que paravam quando ele chegava.
Ainda criança, aprendeu a andar de ponta dos pés. Aprendeu a sorrir menos, a falar menos, a existir menos. “Eu sou o problema”, disse pra si mesmo, com dez anos, enquanto ouvia um tio dizer que “esse garoto não devia ter nascido”. A maldição não parou quando ele cresceu: formado em contabilidade, com emprego fixo em uma empresa pequena, os colegas ainda olhavam para ele com desconfiança. “Filho de quem?”, perguntavam em voz baixa, como se fosse um crime maior do que qualquer outro.
Ele era hétero — já tentou relacionamentos, mas as mulheres se afastavam quando ouviam a história. “Não quero me meter com essa família”, diziam. Ou pior: “E se a maldição passar para os filhos?”. Walmir então decidiu: nunca se casaria. Nunca teria filhos. Nunca deixaria alguém mais carregar o peso que ele carregava. Tentou ser padre — foi até o seminário, mas o padre diretor olhou para ele e disse: “Um homem com sua história tem pecado na alma, filho. Deus não aceita isso”.
Assim, passou os anos. Solteiro, quieto, com um apartamento pequeno cheio de livros que lia para não ouvir o silêncio. Chegou a um ponto que a morte pareceu a única saída. Não queria ser enterrado — não queria ficar na terra que o rejeitou, com uma placa que dizia “filho de ninguém”. Queria ser cremado: virar poeira, sumir de vez. Pagou um plano funerário, escolheu o frasco, disse que ninguém precisava ser avisado. Mas a morte demorava para vir.
Ouviu falar do “Anjo do Morte de Aluguel” — um tipo que, diziam, ajudava gente a partir. Escreveu uma carta, mas nunca mandou. “Eu sou um erro, mas não quero fazer de outro um assassino”, pensou. Então resolveu: teria que ser ele mesmo.
Sumiu das redes sociais primeiro — apagou o perfil, o telefone, tudo. Depois, comprou uma passagem de férias para uma ilha longe, onde havia um vulcão que fumava todos os dias. Chegou lá no fim do verão, caminhou até a encosta alta, onde o solo estava quente e o ar cheio de cinzas. Fez uma última pausa, olhou para o céu e sorriu — a primeira sorriso de verdade em décadas. “Agora, sou só eu e o vento”, disse.
Ninguém sabe exatamente como foi. A polícia disse que foi um acidente — um deslizamento, uma queda no cone vulcânico. Mas Walmir Alexandre sabia o que estava fazendo. Virou churrasco primeiro, depois cinzas, depois poeira que voou com o vento por todo o mar. Não deixou placa, não deixou nome, não deixou de herança sua maldição. Sumiu como queria: como se nunca tivesse existido.
(Fim)
[Nota do blogueiro, hoje: Escrevi esse conto porque ouvi a história de um velho amigo, num botequim de Curitiba, há muitos anos. Não sei se Walmir Alexandre realmente existiu — mas sei que existem muitos Walmirs no mundo, condenados por algo que não escolheram. Que a poeira deles voe alto, longe de todos os que os rejeitaram.]
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