O mistério do ladrão de pó de Madeira.


A noite caindo sobre Curitiba naquele inverno de 1920 traz com ela o nevoeiro denso, úmido e traiçoeiro que se esgueira pelas vielas de pedra perto da Estação Ferroviária. O ruído dos cascos dos cavalos ecoa nas calçadas de petit-chourense, enquanto o vento frio sopra do platô. Em seu gabinete no centro da cidade, iluminado pela luz amarelada de um lampião a gás, o Delegado Ernesto Amâncio Fonseca repousa a cabeça entre as mãos calejadas.

​Diante dele, sobre a mesa de imbuia, repousa uma pilha de inquéritos que tiram seu sono há seis longos meses. O Caso do Ladrão do Pó de Madeira.

​Tudo começara de maneira ridícula, quase cômica. Os donos das grandes marcenarias e serrarias do bairro Rebouças — homens respeitáveis que transformavam os imponentes pinheiros do Paraná em móveis finos e estruturas de casas — procuravam a delegacia com a mesma queixa absurda: durante as madrugadas, um vulto misterioso invadia os pátios de suas oficinas e levava embora montantes de serragem.

​Pó de madeira. Restos. Lixo de oficina.

​No início, Ernesto Amâncio pensou tratar-se de uma zombaria de rapazes boêmios ou de algum necessitado buscando combustível para o fogão de ferro na geada rigorosa. Mas a frequência e a ousadia do criminoso revelavam algo muito mais sinistro e elaborado.

​A cada dois ou três dias, uma nova marcenaria era alvo. O homem era uma fantasma. Desativava os cães de guarda sem disparar um único latido, desvencilhava-se das fechaduras mais complexas e passava despercebido pelos vigias noturnos. E o mais estarrecedor: o volume roubado era gigantesco. Centenas e centenas de quilos de pó de araucária, cedro e imbuia desapareciam sem deixar rastro.

​A alta sociedade curitibana ria do delegado nas colunas sociais dos jornais, mas Ernesto sabia que havia um gênio por trás daquilo. Como Agatha Christie tão bem observaria, a mente humana tende a negligenciar o ridículo, e é no ridículo que frequentemente se esconde o crime perfeito.

​— O que se faz com tanta serragem, meu caro doutor? — perguntava o delegado ao seu assistente, o jovem inspetor Bastos. — Para contrabandear ouro? Para esconder bombas? Para secar o sangue de algum abatedouro clandestino na periferia? Há um esquema maior por trás dessa farsa. Uma rede subterrânea que opera nas sombras da nossa província!

​Ernesto montara emboscadas. Cercara o bairro com policiais à paisana. Chegara a contratar um perito em pegadas da capital. Nada funcionara. O homem simplesmente evaporava.

​Até aquela fatídica noite de quinta-feira.

​Um alarme soou na Marcenaria Stumpf, na Rua Marechal Deodoro. O próprio Ernesto Amâncio liderou a patrulha. Ao chegar ao local, a névoa estava tão espessa que mal se enxergava um palmo diante do nariz. Os policiais cercaram o perímetro.

​— Ali! Na viela dos fundos! — gritou o inspetor Bastos.

​À luz fraca de uma lamparina, Ernesto viu o vulto. Um homem forte, vestindo um sobretudo rasgado e um chapéu fundo, empurrando pesadamente uma carriola de madeira sobre o calçamento irregular. A carriola estava transbordando, acumulando uma montanha de pó de madeira fresca que caía em pequenos flocos pela rua.

​— Parado em nome da lei! — bradou o delegado, sacando o revólver.

​O sujeito não hesitou. Lançou a carriola com força contra os policiais, fazendo o pó subir no ar como uma nuvem cega que fez todos tossirem e lacrimejarem. Aproveitando os segundos de confusão, o criminoso saltou o muro baixo de um quintal vizinho e sumiu para sempre na escuridão congelante de Curitiba.

​A polícia cercou o bairro inteiro até o amanhecer, mas o suspeito havia evaporado na névoa, mantendo sua identidade para sempre sob o véu do mistério. Nunca seria preso. Nunca teria um nome nos arquivos da polícia.

​No entanto, no local do confronto, ficou a prova do delito: a carriola de madeira e a carga derramada na rua.

​O Delegado Ernesto Amâncio Fonseca, com o uniforme coberto por uma fina camada de pó amarelado, aproximou-se do monte de serragem. Mandou vir o perito criminal com seus reagentes químicos, convicto de que finalmente encontraria o segredo escondido no interior daquela madeira moída — moedas falsas, joias roubadas, documentos secretos do governo.

​O perito ajoelhou-se, remexeu todo o monte de serragem com uma colher de pedreiro, peneirou quilo por quilo, aplicou ácidos e, ao fim de duas horas, olhou para o delegado com uma expressão de estupefação.

​— Nada, Delegado. É apenas serragem pura. Madeira moída sem valor algum.

​Ernesto piscou, atônito. Olhou para o monte de pó. Depois olhou para a carriola de madeira nobre, reforçada com aros de ferro trabalhados à mão, perfeitamente equilibrada, um exemplar de marcenaria fina e impecável que valia uma verdadeira fortuna na época.

​E foi naquele instante de silêncio, sob o céu cinzento de Curitiba, que a verdade atingiu a mente do delegado como um raio de clareza psicológica, digno de Hercule Poirot.

​O criminoso nunca esteve interessado no pó de madeira. A serragem era apenas o disfarce, o espetáculo visual para distrair a mente dos homens, enquanto a verdadeira mercadoria passava bem diante dos olhos de todos.

​O ladrão não roubava a serragem das marcenarias.

​Ele roubava as carriolas.


Fim


Autor Alex Sandro Alves 

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