O estranho sonho de Hamilton

O mês de agosto costumava soprar um vento frio e seco que apenas empacotava as manhãs de Hamilton em uma rotina previsível. Seus sonhos, em geral, eram borrões sem importância dos quais ele esquecia antes mesmo de escovar os dentes. Naquela noite, porém, a mente de Hamilton construiu algo assustadoramente detalhado.

​Tudo parecia uma réplica exata da sua vida cotidiana. Na padaria, ao pedir o pão na chapa, sorriu para o atendente como fazia há anos. Foi quando ouviu uma voz ecoar, limpa e nítida, sem que a boca do homem se movesse: “Que sujeito chato. Acha que esse sorriso falso engana alguém?”

​Hamilton piscou, atordoado. No mercado, a cena se repetiu. Ao passar pela caixa, a mulher nem olhava para ele, mas o pensamento dela ressoava em sua cabeça: “Idiota. Olha a cara de quem acha que é melhor que os outros.”

​O pesadelo atingiu o ápice no escritório. Hamilton sempre se orgulhou de ser um profissional impecável. Tratava a equipe com gentileza, ouvia a todos e mantinha a porta aberta. No entanto, ao caminhar pelos corredores, o barulho mental daquele ambiente tornou-se ensurdecedor.

​O analista da mesa ao lado o cumprimentou com um aceno cordial, mas sua mente gritava: “Esse cara é uma fraude. Eu é que deveria estar na cadeira dele.”

​Na sala de reunião, a gerente sorria enquanto pensava: “Metido, incompetente. Não merece metade do salário que ganha.” E, no fundo da sala, até o jovem estagiário, a quem Hamilton ensinara tudo com paciência, cultivava o mesmo desprezo oculto: “Que perfeito idiota. Ele trata todo mundo com respeito enquanto o pessoal trama pra puxar o tapete dele por trás. Que bobo.”

​A hostilidade silenciosa sufocava Hamilton. Era a constatação terrível de que tudo o que ele construíra com empatia era visto como fraqueza ou falsidade.

​Com o coração disparado e o suor frio escorrendo pela testa, ele deu um pulo na cama. O peito subia e descia rapidamente. Olhou para o teto do quarto, para o relógio digital na mesa de cabeceira e soltou um suspiro de alívio puro.

​— Que bom... era apenas um sonho.

​Ajeitou as cobertas, levantou-se e iniciou sua rotina matinal. Tomou um banho quente, vestiu o terno e desceu para tomar café. Na padaria da esquina, o mesmo atendente de sempre o recebeu.

​— Bom dia, Hamilton — disse o rapaz, oferecendo o balcão.

​Hamilton sorriu, pronto para responder que o dia estava bonito, mas travou no meio do gesto. A voz não veio da boca do rapaz, mas soprou fria no fundo de sua mente:

“Lá vem esse ridículo de novo com essa simpatia forçada...”

​Hamilton paralisou. O chão sob seus pés pareceu ceder. O pesadelo não tinha acabado ao abrir os olhos. Ele apenas tinha acordado para o segundo nível daquela mesma noite escura de agosto.

Fim

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