O Coração e a Tela

O Coração e a Tela
 
 
Caminhamos por ruas onde o ar é tecido de luzes invisíveis,
e cada mão segura um espelho que reflete o mundo,
mas não a própria alma.
 
Falam-nos vozes que atravessam mares e montanhas num instante,
palavras rápidas como o vento, leves como folhas secas,
e pensamos que nos conhecemos,
pois trocamos imagens e sinais,
mas esquecemos de trocar o silêncio —
esse idioma antigo onde mora o amor.
 
Construímos máquinas que guardam nossas memórias,
que contam nossos passos, que adivinham nossos desejos,
e, no entanto, esquecemos de guardar o olhar demorado,
o toque que demora, a palavra que nasce devagar,
como uma flor que abre só ao calor do sol paciente.
 
Temos asas de fio e nuvem,
voamos para todos os cantos sem sair do lugar,
mas perdemos o caminho do coração um do outro.
 
O romance, esse filho da espera e da distância medida,
foi-se tornando sombra entre telas brilhantes.
Não há mais cartas escritas com tinta e alma,
não há mais espera à porta, nem versos ditos sob a lua,
pois tudo é dado, tudo é próximo, tudo é já —
e o amor, quando vem sem caminho a percorrer,
é como fruto colhido antes de amadurecer:
tem cor, mas não tem doçura.
 
Mas não digo que tudo está perdido.
Pois em cada peito ainda bate a sede do que é humano.
Por trás de cada tela, há um olhar que procura outro olhar,
por trás de cada sinal, há um suspiro que quer ser ouvido.
 
A tecnologia é uma ferramenta, um barco que construímos
para navegar mais longe, para ver mais além.
Mas o mar continua sendo o mistério,
e o amor continua sendo o vento que enche as velas.
 
Que não nos tornemos escravos das nossas próprias invenções,
mas sim mestres delas.
Que usemos a luz para iluminar o rosto de quem amamos,
e não apenas para brilhar sozinhos na escuridão.
 
Pois a vida não está na velocidade, nem na quantidade,
mas na profundidade do que vivemos,
e na beleza do que compartilhamos,
com o coração aberto,
e o tempo que se doa.

Poema inspirado no jeito de como o poeta Khalil Gibran escreveria se estivesse agora aqui conosco.

Por Alex Sandro Alves 

Comentários