A neblina espessa de Curitiba na noite de terça-feira blindava o casarão antigo no Batel de qualquer olhar curioso. Lá dentro, em uma sala iluminada apenas por luminárias de tom sépia, cinco pessoas sentavam-se em poltronas de couro desgastado. A regra de entrada era simples, porém cruel: exigia-se convite individual, exames de saúde impecáveis e extratos bancários recheados. E, acima de tudo, o sintoma absoluto de ser incapaz de encontrar um único motivo sincero para agradecer por estar vivo.
Naquela mesa, a fartura era um pano de fundo estéril.
Nenhum dos membros usava nomes reais. Cada um carregava um aparelho celular modificado — um smartphone que nunca recebia chamadas de voz, sem chip convencional, configurado exclusivamente com um aplicativo criptografado de mensagens. O toque da tela era a única ponte entre suas solidões compartimentadas.
— A minha médica disse que meus exames parecem os de um atleta de vinte anos — começou Vesper, uma executiva de quarenta e poucos anos, ajustando o casaco de casca de noz. Ela encarou o próprio aparelho. — Vendi minha startup semana passada. Tenho dinheiro para viver três vidas. Mas hoje de manhã, olhando para o reflexo no espelho do banheiro, só senti raiva por meus pulmões continuarem enchendo e esvaziando no automático. Não há gratidão. Só um cansaço infinito.
Ao lado dela, Sombra, um arquiteto renomado cuja assinatura moldara metade do skyline da cidade, deslizou o dedo pela tela escura do aparelho.
— A mensagem de notificação de pagamento de um projeto gigante chegou há pouco — disse ele, a voz rouca. — Eu deveria comemorar. Mas abri a geladeira, peguei uma garrafa de água mineral importada e pensei: "Para quê?". A saúde é perfeita, o saldo é absurdo, mas a existência parece um teatro mal escrito que sou obrigado a assistir em looping.
Os celulares do grupo emitiram um aviso sonoro idêntico, um bip grave e curto. Não era uma chamada externa; era a notificação do sistema do clube, aberta para a rodada de "desabafos não-filtrados".
Silex, o mais jovem, um herdeiro que passava os dias viajando pelo mundo em primeira classe, leu a própria mensagem recém-enviada ao chat local:
"Tentei procurar motivação na viagem a Kyoto. Nada. Estar vivo me parece uma dívida que nunca pedi para contrair."
Ninguém oferecia conselhos rápidos ou frases de autoajuda. O propósito do clube não era a cura, mas a trégua. Em um mundo que exigia produtividade, sorrisos em redes sociais e uma gratidão performática a cada conquista material, aquele grupo era o único refúgio onde podiam confessar o vazio sem serem julgados como ingratos.
A porta do salão se abriu suavemente e Anfitrião, o membro fundador, entrou com uma bandeja de chá. Ele pousou o aparelho dele sobre a mesa. O visor mostrava a única aba permitida: a lista dos cinco participantes online.
— A vida nos deu tudo o que a maioria das pessoas passa a existência inteira tentando alcançar — refletiu Anfitrião, servindo as xícaras. — E, no entanto, aqui estamos. Prisioneiros de uma vitalidade que nos parece inútil.
O silêncio voltou a tomar conta da sala, quebrado apenas pelo chiado da chuva contra o vidro da janela. Por um breve instante, enquanto os aparelhos brilhavam em sincronia sobre a madeira escura, os cinco compreenderam que a única coisa que os mantinha conectados à realidade era, ironicamente, a própria partilha daquela absurda e inabalável apatia.
Fim ou continua?
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