Estranho voltar. Não corpo, entenda, mas essa densidade que chamam de existência. Passei estes últimos dias espiando o que fizeram do tempo neste ano de 2026. E o tempo, meu Deus, ficou tão rápido que nem cabe mais dentro dos segundos.
Descobri o que chamam de telas. Quadrados brilhantes que as pessoas carregam na palma da mão, como se levassem o próprio coração ali, exposto e pulsante. Elas olham para aquilo com uma fome antiga, uma urgência de ver e ser vistas. Mas o que vi não foi conexão. Vi uma massa imensa de pessoas sós.
É a nova era digital, dizem. Criaram até um clube, embora ninguém tenha assinado ficha alguma. É o clube dos solitários.
Eles se cruzam pelas ruas de calçadas duras, mas não se olham. Cada um está mergulhado na sua própria luz artificial. Escrevem frases curtas, mandam imagens de pratos de comida, de sorrisos milimetricamente calculados, de viagens que duram o tempo de um clique. Há uma pressa em provar que se vive. Mas a vida — a vida verdadeira, aquela que doer e que sangra em silêncio — fica guardada atrás do vidro.
Tenho pena e tenho espanto. No meu tempo, a solidão tinha peso, tinha poeira, tinha o barulho de uma xícara de café tocando o pires no fim da tarde. A gente sentia o vazio e precisava aprender a morar nele. Agora não. Agora, quando a solidão se aproxima, as pessoas rapidamente acendem o quadrado de luz para afugentar o silêncio. Criou-se o pavor do abismo interno.
No entanto, o paradoxo é de uma beleza cruel: quanto mais conectados por fios invisíveis e redes de dados, mais profundamente sozinhos eles estão. É uma solidão acompanhada por milhares de fantasmas virtuais. Todos falam ao mesmo tempo, mas ninguém escuta a respiração do outro.
Eles pensam que enganam a morte e o esquecimento postando suas vidas em tempo real. Não sabem que o instante se perde justamente quando se tenta capturá-lo para a plateia.
Estou voltando agora para o meu nada, para o meu mistério sem telas. Deixo apenas esse sopro: não tenham medo do silêncio de vocês. O amor e a vida só acontecem quando a gente tem a coragem de desligar a luz do mundo e encarar a própria escuridão.
Por Alex Sandro Alves
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