O Brasileiro: O Guerreiro que Virou Contador de Piadas


Dizem por aí — e eu não sou quem vai desmentir, não, porque a verdade dói mas também faz rir — que o brasileiro mudou da água para o vinho, e pior: trocou o vinho forte, de briga e de coragem, por um suco doce, bem doce, de aceitação e de risada fácil. 

Antigamente, ah, antigamente era outra história! O brasileiro era aquele sujeito que via um erro, uma injustiça, um preço que subia sem motivo, e já levantava a voz, batia o pé, ia à rua, fazia barulho, pedia o que era seu por direito. 

Tinha sangue nos olhos e fogo na alma, era capaz de virar o mundo de cabeça para baixo se achasse que algo não estava certo. Era revolucionário por natureza, brigão por necessidade, defensor de si e do outro como se fossem um só.
 
Mas hoje, meus amigos, hoje eu olho para o lado e vejo uma coisa curiosa: o dom de brigar? Perdeu. O dom de ir à luta, de mudar o que está errado, de cobrar o que é nosso? Sumiu, evaporou, foi embora com o vento. Você vê um aumento absurdo na conta de luz, na de água, no preço do pãozinho da manhã? 

O brasileiro não reclama mais com força, não vai atrás de solução, não se junta aos outros para exigir respeito. Ele só balança a cabeça, dá um suspiro e diz: “Ah, mas pelo menos hoje não choveu, né?”
 
Vê uma lei que não serve para ninguém, um político que faz o que quer, um serviço público que não presta para nada? Ninguém se mexe. Ninguém vai à rua. Ninguém faz confusão. O máximo que acontece é uma reclamação baixinho no canto da sala, ou uma mensagem curta nas redes sociais, que some tão rápido quanto apareceu.

Parece que todo mundo resolveu que é mais fácil aceitar, que é melhor não arrumar confusão, que “a vida é assim mesmo e pronto”. O espírito de luta, aquele que fez tanta coisa mudar nesse país, foi trocado por uma resignação que dói de ver.
 
Mas tem uma coisa, ah, tem uma coisa que ninguém pode tirar do brasileiro: o dom da piada. Esse, ele nunca perdeu, nunca deixou morrer, nunca deixou enferrujar. 

Pode faltar dinheiro, pode faltar saúde, pode faltar justiça, pode faltar tudo — mas a piada está lá, sempre pronta, sempre afiada, sempre na ponta da língua. Se o ônibus atrasa: “Que bom, assim eu tenho mais tempo para apreciar a paisagem feia da rua!”. 

Se o salário não dá para o mês: “Melhor assim, eu evito gastar com besteira!”. Se a situação do país está uma bagunça: “Pelo menos dá pauta para o meu churrasco de domingo!”.
 
O brasileiro transforma problema em anedota, sofrimento em história engraçada, dificuldade em piada pronta. Ele ri de si mesmo, ri do governo, ri da vida, ri de tudo e de todos. 

É uma sabedoria estranha, essa, uma forma de sobrevivência que é só nossa. Mas eu fico pensando: será que essa piada não está virando um escudo? Será que não estamos usando o riso para esconder a falta de coragem? Será que, ao rir de tudo, não estamos deixando de lutar por tudo?
 
Porque, veja bem: o riso é coisa boa, é remédio, é alívio. Mas ele não resolve conta, não muda lei, não traz justiça, não melhora a vida de ninguém sozinho. 

O brasileiro ainda é o mais brincalhão do mundo, o que faz graça até na hora de chorar — e isso é uma beleza, uma marca nossa, uma coisa que ninguém imita. 

Mas seria tão bom se ele recuperasse também aquele outro dom: o de brigar, o de lutar, o de transformar a realidade. Porque aí, sim, a piada não seria só consolo — seria também comemoração de vitórias conquistas.

por Alex Sandro Alves 

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