Homilias do Padre Hilário 0001


Homilia
 
Irmãos e irmãs em Cristo Jesus,
 
Começo hoje com uma frase que não vem da Bíblia, não vem de um santo, não vem de um papa — vem de um técnico de basquete universitário americano, chamado John Wooden, que ganhou dez campeonatos nacionais em doze anos, não por ter sempre os melhores jogadores, mas por ensinar aos seus rapazes uma verdade simples, que cabe perfeitamente no Evangelho que ouvimos hoje:
 
“As coisas funcionam melhor para aqueles que fazem o melhor de como as coisas funcionam.”
 
Muitos ouvem essa frase e entendem errado. Pensam: “Ah, então é para se conformar, aceitar tudo calado, não lutar, não reclamar, ficar quieto no seu canto.” Não, irmãos. É exatamente o contrário. Wooden não ensinava seus jogadores a aceitar a derrota. Ele ensinava: primeiro, aceite com honestidade o cenário que você tem HOJE — as regras do jogo, o time que você tem, a quadra em que vai jogar, os limites do seu corpo — e dentro desse cenário, dê o melhor de si, sem gastar energia reclamando do que não dá para mudar AGORA. Quem joga reclamando da bola, da arbitragem, do tamanho da quadra, perde o jogo antes de ele começar. Quem aceita o jogo como ele é, e joga o melhor que pode dentro dele, tem tudo para vencer.
 
 
 
Essa verdade humana, irmãos, o Evangelho de hoje nos confirma como verdade de Deus. Na Parábola dos Talentos — Mateus 25, 14-30 — o senhor vai viajar, chama seus três servos e lhes entrega bens: a um dá cinco talentos, a outro dois, a outro um — “a cada um, segundo a sua própria capacidade”. Não deu o mesmo para todos. Uns receberam mais, outros menos. Uns nascem com mais saúde, mais inteligência, mais dinheiro, mais família; outros nascem com limites, com dores, com faltas, com processos na justiça, com doenças que não escolheram, com cargos que não são os que sonharam, com horários de trabalho que apertam a vida. Deus não dá a todos o mesmo pacote. Ele dá a cada um o pacote certo para a sua vocação.
 
E o que acontece? O que recebeu cinco talentos trabalhou, fez render mais cinco. O que recebeu dois, fez render mais dois. Esses dois fizeram exatamente o que Wooden ensinou: aceitaram o que receberam — não reclamaram “ah, por que eu não ganhei dez?”, “ah, o outro tem mais que eu” — e dentro da realidade que tinham, deram o melhor de si. E o senhor volta e diz a cada um: “Muito bem, servo bom e fiel! Foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.”
 
E o terceiro? O que recebeu um talento? Ele fez exatamente o contrário. Reclamou do senhor, teve medo, não aceitou a realidade do pouco que tinha — e enterrou o seu talento na terra. Não fez mal a ninguém, não gastou o dinheiro, não roubou: só não fez NADA com o que tinha. E a condenação dele não foi por ter tido pouco. Foi por ter desperdiçado o pouco que teve, por não ter feito o melhor com a realidade que lhe foi dada.
 
 
 
Irmãos, essa parábola fala diretamente da nossa vida aqui, na nossa terra, no nosso dia a dia. Fala do pai de família que acorda às cinco da manhã para pegar o ônibus e trabalhar oito horas, ganhando pouco, mas leva o pão para casa com honestidade. Fala da mãe que cria três filhos sozinha, sem ajuda, sem dinheiro sobrando, mas faz de cada refeição, de cada noite de sono, de cada oração antes de dormir um milagre de amor. Fala do profissional de saúde que está ali na unidade, no hospital, na hemodiálise, que não tem todos os equipamentos que queria, não tem todo o pessoal que precisa, mas faz o melhor atendimento possível com o que tem na mão — e isso salva vidas. Fala do servidor público que não pode mudar todas as regras de uma hora para outra, mas dentro das regras que existem, faz o serviço direito, com dignidade, para o povo. Fala do irmão que luta com ansiedade, com depressão, com insônia, com exames que não saem como quer, com doenças crônicas que não somem — e mesmo assim acorda todo dia, toma o remédio certo, faz o preparo certo para o exame, escolhe o tratamento que ajuda, cuida de si como pode. Fala de quem tem processos na justiça que arrastam há anos, que não sabe o final, mas dentro do que a lei permite, faz a sua parte, não desiste, não se entrega ao desespero.
 
As coisas funcionam melhor para quem faz o melhor com como as coisas funcionam. Não para quem tem mais. Não para quem tem menos dificuldades. Não para quem tem sorte. Para quem, dentro da realidade que Deus lhe entregou HOJE — com os seus talentos, os seus limites, os seus sofrimentos, as suas alegrias — decide: “vou fazer o melhor que eu puder, com o que eu tenho, aqui e agora.”
 
 
 
Mas atenção, irmãos: isso não é conformismo com o mal, não é aceitar injustiça calado, não é parar de lutar por mudanças. Jesus não se conformou com o pecado do mundo, não se conformou com a exploração do pobre, não se conformou com a morte — Ele lutou contra tudo isso até a cruz. Mas Ele aceitou, com obediência ao Pai, a realidade da sua missão: “Não seja feita a minha vontade, mas a tua.” Ele fez o melhor possível dentro da realidade humana que assumiu: amou até o fim, perdoou até o último ladrão, entregou a sua vida por nós — e assim venceu o mundo.
 
Quem faz o melhor com como as coisas funcionam hoje, não abandona a luta por um mundo melhor amanhã. Pelo contrário: é sendo fiel no pouco hoje que Deus nos prepara para cuidar do muito amanhã. O servo que foi fiel nos dois talentos, recebeu a responsabilidade sobre muito mais. A mudança que a gente quer para a família, para o trabalho, para a saúde, para a Igreja, para o país — ela começa não quando as circunstâncias ficam perfeitas, mas quando nós, no meio das circunstâncias imperfeitas de hoje, decidimos fazer a nossa parte direito.
 
 
 
Irmãos, hoje a Eucaristia que vamos receber é o maior exemplo disso. Deus não veio ao mundo com poder de imperador, com riqueza, com exércitos. Ele veio como um menino pobre, em uma manjedoura, cresceu em uma família de trabalhadores, viveu trinta anos na simplicidade de Nazaré, fez o seu ministério com doze homens simples, um dos quais o traiu, e morreu numa cruz como criminoso. Ele fez o melhor de como as coisas funcionavam, para a nossa salvação. E desse “pouco”, Ele fez a maior obra da história: nos redimiu, nos abriu as portas do Céu, nos fez filhos de Deus.
 
Hoje Ele vem até nós, nesse pão e nesse vinho, para nos dar a força de fazer o mesmo. Não pede que sejamos perfeitos. Não pede que tenhamos tudo resolvido. Pede que, com a graça que Ele nos dá, façamos o melhor com o que temos:
 
- No nosso trabalho, por menor que pareça;
- Na nossa família, por mais difícil que esteja a convivência;
- Na nossa saúde, por mais que tenhamos limitações;
- Na nossa oração, por mais que a mente distraia;
- No nosso dinheiro, por mais que falte no fim do mês;
- No nosso serviço ao próximo, por mais pequeno que seja o gesto.
 
Quem faz isso, irmãos, descobre uma coisa maravilhosa: Deus não espera que nós completemos a obra sozinhos. Ele espera que nós façamos a nossa parte, o melhor que pudermos — e Ele completa o resto, com a sua misericórdia.
 
Que Nossa Senhora, que disse “Eis aqui a serva do Senhor, faça‑se em mim segundo a tua palavra” — ela que fez o melhor da sua vida, com a missão que Deus lhe deu — nos ensine a aceitar a realidade de cada dia com fé, a trabalhar nela com esperança, e a amar nela com caridade.
 
E assim, um dia, também possamos ouvir do Pai a mesma frase que os servos bons da parábola: “Muito bem, servo bom e fiel! Entra no gozo do teu Senhor.”
 
Amém.

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