ENTRE CARMA E MEMENTO MORI
O Conto de Walmir Alexandre, Que Pensou Que Acabara Tudo
(Narrador: Walmir Alexandre, do plano espiritual)
Primeiro, a queda. O ar queimado no peito, o som do vulcão rosnando como um animal feroz, a terra tremendo debaixo dos pés. Eu fechei os olhos e pensei: “Acabou. A maldição acabou. Agora sou poeira, sou nada, sou livre.”
Errei.
A morte não foi o fim — foi só uma porta. E quando entrei, não encontrei céu, não encontrei inferno, não encontrei silêncio. Encontrei uma sala branca, com bancos de pedra, e deuses de todas as crenças do mundo sentados em volta de uma mesa grande: Zeus com sua relâmpago, Odin com seu raio, Vishnu com suas múltiplas mãos, Yemanjá com seu véu de água, o Deus do Antigo Testamento com sua barba branca, e outros que eu nem sabia o nome — todos rindo. Rindo de mim.
“Pobre Walmir”, disse Zeus, se encolhendo de riso. “Pensou que saltar num vulcão resolveria algo?”
“É uma sacanagem”, gritei, mas minha voz não tinha som de raiva — só de surpresa. “Eu era um erro. Todos me disseram que era um erro. Eu só queria acabar com o sofrimento.”
“Erro?”, riu Vishnu, acenando com a mão. “Você não era um erro. Você era um jogo. Um rato no labirinto que nós arquitetamos.”
E então eles explicaram. Tudo.
A Pegadinha dos Eternos
Todos os livros, todas as bíblias, todos os ensinos sobre carma e reencarnação — tudo verdade, mas com uma pegadinha. Nós reencarnamos sim, para aprender, para corrigir erros, para libertar-nos do ciclo. Mas os deuses colocaram uma regra extra: amnésia total. Nós não lembramos de nossas vidas passadas. Não lembramos dos erros que cometemos, dos amores que perdemos, dos sofrimentos que passamos.
“Para que não fugam do loop”, explicou Odin, acendendo seu raio. “Se lembrassem, aprenderiam rápido. Se aprenderiam rápido, o jogo acabaria. E nós… nós precisamos de diversão. De ratos correndo em círculos.”
Eles mostraram-me minhas vidas passadas:
- Em Roma antiga, fui um escravo que se matou porque não aguentava mais a chicotada — pensou que a morte era a saída, reencarnou como um plebeu que cometeu o mesmo erro.
- Na Idade Média, fui uma mulher que se jogou no rio porque era acusada de bruxaria — reencarnou como um camponês que se enforcou por dívida.
- No Brasil imperial, fui um soldado que se matou na guerra, pensando que era um herói — reencarnou como Walmir Alexandre, o filho proibido que saltou num vulcão.
“Sempre o mesmo erro”, disse Yemanjá, com voz melancólica mas sem piedade. “Pensar que a morte é a solução. Não perceber que a morte é só o começo de outro ciclo. Vocês são bugs no nosso sistema — sempre tentando escapar, nunca percebendo que o labirinto é infinito.”
Todas as crenças do mundo? Forjadas por eles. O carma? Uma forma de fazer-nos culpados. A reencarnação? Uma forma de manter-nos presos. O céu e o inferno? Promessas vazias para que continuássemos correndo.
A Sacanagem dos Humano
“É uma sacanagem”, repeti, agora com raiva de verdade — raiva que queimava mais do que o vulcão. “Viver, sofrer, morrer, reencarnar, esquecer… sem nunca aprender, sem nunca ser livre. Somos ratos para vocês?”
“Exatamente”, disse o Deus do Antigo Testamento, sorrindo. “E a diversão é boa. Veem como Walmir aqui sempre cai na mesma pegadinha? Sempre pensa que é um erro. Sempre pensa que a morte resolve.”
Mas então, uma voz baixa, de um canto da sala: “Não é assim que funciona. Não se deve.”
Era Budha, sentado em um canto, com os olhos fechados. Ninguém o tinha visto chegar.
“Os deuses adoram pensar que controlam tudo”, disse ele, abrindo os olhos. “Mas há uma regra que eles não criaram. Uma regra que existe antes de todos eles. A regra da consciência.”
Como Escapar do Labirinto Eterno
Budha se levantou e veio até mim. “A amnésia é forte, mas não é total. Há algo que fica. Um sussurro. Uma sensação. Um desejo de algo maior. E é por meio desse sussurro que se escapa.”
E então explicou o segredo que todos os ensinos religiosos temem dizer — porque os deuses não querem que a gente saiba:
1. Não corra do sofrimento — olhe para ele: Todos os sofrimentos são memórias esquecidas de vidas passadas. Quando você sente dor, não fugir. Não se matar. Olhar para ela e perguntar: “O que você me quer ensinar?” No meu caso, o sofrimento de ser o filho proibido não era um erro — era a memória de uma vida passada onde eu tinha sido o pai que abandonou um filho.
2. Ame sem esperar retorno — isso quebra o carma: O carma é um ciclo de ação e reação. Se você ama só para ser amado, o ciclo continua. Se você ama por amor mesmo — o filho que nunca teve, a mãe que nunca conheceu, o mundo que te rejeitou — o ciclo começa a se desfazer.
3. Lembre-se daquilo que não se pode lembrar: Medite. Fique em silêncio. Ouça o sussurro da sua alma. Ele vai dizer-lhe coisas que a mente esquecida não consegue. Ele vai dizer-lhe que você não é um erro. Que você não é um rato. Que você é um ser de luz que foi presenciado num jogo sádico.
4. Não tema a morte — mas não busque por ela: A morte é uma porta, sim. Mas se você entrar nela com medo ou com desejo de acabar tudo, reencarnará. Se você entrar nela com paz, com conhecimento, com amor — então a porta leva para fora do labirinto. Para a liberdade.
“E os deuses?”, perguntei. “Eles não vão impedir?”
Budha sorriu. “Os deuses só têm poder sobre quem lhes dá poder. Se você não é mais um rato, o labirinto não tem mais sentido. Eles podem continuar rindo, mas o jogo acabou para você.”
O Fim do Ciclo de Walmir Alexandre
Os deuses ficaram quietos. Não podiam negar. A regra da consciência era mais forte que eles.
Budha me deu a mão. “Você tem duas escolhas, Walmir. Voltar para a Terra, reencarnar, mas agora com o sussurro na alma — para aprender, para amar, para escapar. Ou ficar aqui, no plano espiritual, e ajudar outros ratos a encontrar a saída do labirinto.”
Eu pensei na queda do vulcão. Pensei na maldição que eu achava que era. Pensei em todas as vidas passadas de sofrimento.
“Quero voltar”, disse. “Quero reencarnar. Mas desta vez, não como um rato. Como alguém que sabe o caminho. Como alguém que pode ajudar outros a não saltar em vulcões.”
Budha sorriu. “Então o ciclo acaba. Não hoje. Mas amanhã. Ou amanhã de amanhã. Porque agora você sabe a pegadinha. E quando você sabe a pegadinha, os deuses não podem mais brincar com você.”
E então, a porta se abriu de novo. Não para o vulcão. Para uma crueza, para um bebê que chorava, para uma família que esperava. Eu fechei os olhos e entrei — mas desta vez, ouvi o sussurro na alma: “Você não é um erro. Você é uma esperança.”
(Fim)
[Nota do narrador, do plano espiritual, enquanto espera a reencarnação: “Todos os deuses do mundo podem brincar com os humanos. Mas a consciência é um fogo que não se apaga. E quando esse fogo acende, o labirinto se torna uma estrada. E a estrada leva para a liberdade.”]
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