O chão de porcelanato do Shopping Imperial brilhava tanto que dava para ver o reflexo da discórdia. Darlene empurrava o carrinho de limpeza com a compostura de quem carrega um cetro real, enquanto Elenice, sua tia de consideração e colega de turno, torcia o esfregão com a força de quem espreme um desafeto.
— Eu só estou dizendo a verdade, Elenice. Agregado não é parente. Parente tem o mesmo sangue, mesmo sobrenome ou, no mínimo, a mesma cara de bravo da sua família.
— Ah, pronto! — Elenice apoiou as mãos na cintura, deixando o rodo de escanteio. — Quer dizer então que você dorme com meu sobrinho Ademir há sete anos, come da maionese da minha mãe no Domingo de Páscoa, e agora cisma que é uma estranha no ninho?
— Estranha não, meu amor. Eu sou a esposa. O Ademir é seu parente. Eu sou um anexo. Uma extensão contratual. Se o Ademir me der um pé na bunda amanhã, o sangue de vocês continua correndo na veia dele e eu me torno o quê? Uma assombração no grupo do WhatsApp!
Elenice soltou uma gargalhada escandalosa que ecoou até a praça de alimentação, fazendo dois adolescentes olharem assustados.
— Darlene, você limpou gordura de pastel demais daquela mesa 14 hoje, só pode. Desde quando casamento não faz família? Quem aguenta o Ademir roncando feito uma britadeira às cinco da manhã ganha o quê? Um diploma de tolerância? Você é parente sim! E digo mais: parente por escolha, que é pior, porque não dá nem para culpar a genética.
— Mas a lei concorda comigo! — Darlene retrucou, apontando o borrifador de Limpa-Vidros para a tia como se fosse uma arma. — O código civil chama de "afinidade". Afinidade não é sangue, Elenice. Se o Ademir for cobrado na justiça, a dívida é dele. Se você me dever cinco reais da coxinha, eu posso te processar sem remorso constitucional!
— Você não teria essa audácia — Elenice estreitou os olhos, pegando o pano de microfibra. — E outra: se você é só "afinidade", por que foi você que me ligou domingo passado pedindo para eu ir lá na sua casa benzer a costela do Ademir que tinha travado no futebol?
— Porque eu sou uma esposa dedicada, não uma parente consanguínea! É dever do cargo.
— Pois para mim, se dividiu o mesmo teto, pediu xícara de açúcar emprestada e reclamou do preço da carne na mesma mesa, virou parente. Pai e mãe a gente atura por destino; agregado a gente atura por teimosia. E teimosia cria laço mais forte que DNA.
Darlene borrifou o espelho do banheiro com vontade, tirando uma mancha de batom com movimentos circulares e perfeitos.
— Elenice, pensa comigo. Se a sua cunhada Neide briga com o seu irmão, ela vira ex-cunhada. Mas o seu irmão continua sendo seu irmão. Viu? A Neide era o quê? Agregada! Passou o contrato, acabou o parentesco. Agregado é igual contrato de aluguel: venceu, desocupa o imóvel.
— Pois o seu contrato com o Ademir tem cláusula pétrea, minha filha. Você já conhece até o chiado do intestino dele quando ele come feijão tropeiro. Quer intimidade maior que essa? Se isso não é ser parente, eu não sei mais o que é.
Darlene parou o pano por um segundo, olhou para o próprio reflexo no espelho limpo e depois para Elenice, que segurava o riso com a boca torta.
— Tá bom. Se eu sou parente, cadê a minha parte na herança do terreno do seu vizinho que a sua família tá brigando desde 1998?
— Ah! — Elenice pegou o carrinho e voltou a andar pelo corredor. — Aí você tocou num ponto delicado. Pra herança e pra limpar sujeira de cachorro no quintal, você é totalmente agregada. Nem conheço!
— Eu sabia! — Darlene riu, balançando a cabeça e acompanhando a tia pelo corredor dos cinemas. — Na hora do perrengue é 'nossa família', na hora do terreno de Jacarepaguá eu sou a mulher do sobrinho!
— A vida é feita de prioridades, Darlene. Agora anda logo com esse balde que o cinema dois vai esvaziar e o chão tá puro refrigerante derramado. E avisa o seu marido — meu sobrinho — que domingo tem macarronada. E você tá convocada.
— Vou como parente ou como agregada?
— Vai como a coitada que vai lavar a louça toda depois do almoço!
Fim
Comentários
Postar um comentário