O Turno Oculto de Marcos
Durante o dia, a farda verde-oliva, o boné com a inscrição "VIGILANTE" e os óculos escuros serviam como uma armadura de invisibilidade social. Atrás daquela guarita de metal e do portal de segurança, Marcos era apenas mais uma engrenagem no sistema. Um homem pago para observar, relatar e, acima de tudo, não interferir além do protocolo.
Mas o protocolo não salvava vidas. O protocolo protegia os poderosos.
Marcos via, semana após semana, os mesmos rostos cínicos passarem por ali. Empresários que financiavam o tráfico de armas, políticos com as mãos sujas de desvios da saúde e criminosos de colarinho branco que, graças a amizades influentes nos tribunais e astúcia de sobra, operavam acima do bem e do mal. Para as vítimas — os incapazes, os idosos despejados, as famílias destruídas —, restava apenas o choro abafado nos corredores frios da burocracia. O sistema era uma máquina perfeitamente lubrificada para garantir a impunidade dos lobos.
Por isso, quando o sol se punha e o seu turno oficial terminava, Marcos não ia para casa descansar. Ele iniciava o seu verdadeiro trabalho.
A Caçada
Naquela sexta-feira, o alvo era herdeiro de uma das maiores fortunas da cidade. O sujeito havia atropelado uma jovem na periferia enquanto dirigia embriagado; o dinheiro comprou o silêncio das testemunhas e o caso foi arquivado antes mesmo de virar manchete. Para a lei, um acidente infeliz. Para Marcos, uma dívida de sangue.
Escondido nas sombras de um beco industrial, Marcos trocava a postura rígida de segurança pelo instinto predador de um caçador. Ele não tinha superpoderes, não usava armaduras tecnológicas de última geração. Sua justiça era analógica, crua e cirúrgica. Como nos velhos filmes de ação que assistia na infância, ele acreditava que o crime era uma doença, e ele era a cura.
Quando o utilitário de luxo do criminoso parou no sinal deserto, a ação foi rápida.
O bastão tático que Marcos carregava no cinto partiu o vidro lateral em um único golpe seco. Antes que o motorista pudesse entender a situação ou puxar a pistola de grife que guardava no console, a mão firme de Marcos já o havia arrancado para fora do veículo, arrastando-o pelo asfalto frio.
O Veredicto
O jovem criminoso, acostumado a gritar ordens e usar o nome do pai como escudo, chorou.
— Você sabe quem eu sou? Eu posso acabar com a sua vida! Você vai mofar na cadeia! — gritou, a voz trêmula de pavor.
Marcos manteve o rosto parcialmente coberto, os olhos fixos no homem caído. A pistola em sua mão direita não tremia; o cano de metal refletia a luz pálida dos postes. Na outra mão, o bastão tático estava pronto para o trabalho pesado.
"Seus amigos importantes não estão aqui agora", disse Marcos, a voz um sussurro grave e cortante. "A justiça deles tem preço. A minha é de graça."
Não houve execução, mas houve o acerto de contas. O som do bastão quebrando os joelhos que nunca ajoelharam para pedir perdão ecoou pelo beco deserto. O recado foi deixado, gravado na carne e no medo: a impunidade tinha um prazo de validade.
Na manhã seguinte, Marcos estava de volta à guarita. O boné alinhado, os óculos escuros escondendo as olheiras da noite em claro. Pelo rádio da segurança, ouvia os comentários assustados sobre o "acidente" sofrido pelo jovem milionário. Marcos não sorriu. Ele apenas ajeitou o coldre na cintura e continuou observando o movimento. A cidade continuava doente, e a noite sempre voltava.
Conto de ficção feito especialmente para o Blog O Escritor Dislexo
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