O país que ser pobre era uma qualidade a ser mantida a qualquer custo

Teve um tempo nesse Brasil em que ser pobre não era um defeito.
Era só um jeito de viver.
 
Era bonito usar a camisa do irmão mais velho, com a barra remendada pela mãe, e andar na rua sem se envergonhar. Era bonito chegar na casa do vizinho, bater na porta que nunca tinha tranca, e ouvir “entra, tem café quente”. Era bonito dividir o pão com manteiga, o pedaço de queijo, o último gole de refrigerante — porque pouco dividido nunca era pouco.
 
“Não tenho” não era resposta de quem falhou. Era resposta honesta. Ninguém fingia ter carro, ou roupa de marca, ou dinheiro sobrando. Todo mundo sabia quanto todo mundo ganhava, e ninguém julgava ninguém por isso. Chinelo de dedo era sapato de festa. Mesa de madeira era lugar de rei.
 
Hoje a pobreza ficou feia.
O sistema levou a dignidade que tinha dentro dela. Tiraram o trabalho, tiraram o preço justo do pão, tiraram a segurança que a porta aberta um dia teve. Agora quem tem pouco tem que se envergonhar. Tem que fingir. Tem que correr atrás de um status que nunca vai chegar, porque o jogo já vem marcado.
 
Saudades não da fome, não da dificuldade.
Saudades do quanto éramos ricos em coisa que não se compra: a solidariedade que não era post, a honestidade que não era exceção, a certeza que se você caísse, ia ter dez mãos pra te levantar.
 
Era bonito ser e agir como pobre quando a pobreza não era uma sentença.
Era só um jeito de ser gente.
 
 Fim
 
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