O Caçador de Ufulogos

Joel era um cara como qualquer outro.
 
Trabalhava em uma oficina de carro no bairro, almoçava todo dia o mesmo prato feito — arroz, feijão, bife e ovo — e à noite assistia futebol ou dormia cedo. Não tinha amigos de verdade, não saía muito. Para quem o conhecia, ele era só um homem quieto, sem graça nenhuma.
 
O que ninguém sabia é que, quando a lua nascia, dentro da cabeça do Joel aparecia outro.
 
Ele se chamava o Caçador de Ufulogos, pessoas que ele acredita serem merecedoras de ganhar um trote por acreditar em coisas que para ele não existiam.
 
O Caçador não era quieto. Não gostava de futebol. O que ele amava, de verdade, era caçar ufulogos.
 
Não cacava os ETs de verdade — esses ele jurava que não existiam. Ele caçava os humanos que acreditavam neles. Os que passavam a madrugada em fóruns da internet, os que faziam reunião em praça para contar que foram abduzidos, os que carregavam gravador e máquina fotográfica para todo canto esperando um sinal do espaço.
 
Para o Caçador, eles eram todos uns idiotas. E a sua missão na vida era provar isso. Do jeito mais idiota possível.
 
Ele fazia pegadinhas estilo aqueles vídeos antigos de Jackass ou o clássicos de filmes de humor norte americano que ele assistia escondido. Coisas que davam um trabalhão do caralho, mas que valiam a pena pela reação da vítima.
 
Uma vez, ele passou três noites montando uma “peça de nave espacial” com latinha de alumínio, fio de cobre e uma luzinha de bicicleta. Deixou no meio de um milharal, esperou. Quando o cara do fórum chegou, todo tremendo, ajoelhou e começou a rezar agradecendo aos alienígenas, o Caçador pulou do mato gritando “PEGADINHA!”, filmou tudo e postou anonimamente na internet. O vídeo teve 3 milhões de acessos. Ele riu até doer a barriga por três dias.
 
Outra vez, ele comprou uma roupa de borracha cinza, máscara de látex com olhos grandes, e ficou escondido atrás de uma árvore no caminho de casa de uma senhora que dizia ser contatada por estraterestres todos os dias. Quando ela passou, ele pulou fazendo um som de “BZZZZT”. A senhora gritou tão alto que acordou cachorros de três quarteirões, desmaiou no gramado e acordou no hospital jurando que tinha sido levada para Marte. O Caçador riu tanto que quase engasgou com o refrigerante que tomava.
 
O pior é que o Joel normal não lembrava de nada disso.
 
Ele só acordava de manhã com a roupa toda suja de barro, unhas quebradas, às vezes um arranhão no rosto que ele não sabia de onde tinha vindo. O celular sempre cheio de vídeos e fotos que ele não reconhecia. Ele tinha medo de estar ficando louco. Mas tinha mais medo ainda de ir ao médico e ouvir que sim. Então fingia que nada havia ocorrido.
 
Até a noite que o Caçador escolheu o alvo errado.
 
Era um cara que postava todo dia no maior grupo de ufo da cidade: “Todas as noites, meia-noite, no Beco da Cruz. Ele vem. Cinza, alto, olhos de preto. Eu já vi três vezes. Quem quiser prova, aparece lá.”
 
O Caçador quase molhou a calça de animação. Alvo perfeito.
 
Ele se preparou como nunca. Roupa nova de ET, máscara de látex de qualidade cara, lanterna de cabeça, duas câmeras de ação — uma no peito, outra escondida no poste para filmar de longe. Chegou ao beco onze horas da noite, se escondeu atrás de um tambor de óleo velho, e esperou.
 
O relógio bateu meia-noite.
 
No fim do beco, apareceu uma sombra.
 
Era um cara magro, todo de roupa preta, chapéu de aba larga que cobria o rosto. Andava devagar, sem fazer barulho nenhum. Parou bem no meio do beco, exatamente onde o Caçador tinha planejado.
 
O Caçador agarrou a câmera com força. Agora, pensou. Vai ser a melhor pegadinha da história.
 
Ele deu um pulo para frente, tão forte que quase caiu. Gritou no topo dos pulmões:
 
— PEGADINHA DO CAÇADOR! VOCÊ CAIU, IDIOTA!
 
O cara não se mexeu.
 
Virou a cabeça devagar.
 
Primeiro, o chapéu caiu no chão.
 
Depois, a pele do rosto dele começou a mudar. Não era máscara. Era a carne mesmo, se mexendo como massa de modelar. Ficou cinza, brilhante, como se fosse feita de metal molhado. Os olhos cresceram, cresceram, até ficarem do tamanho de uma bola de tênis, pretos, sem branco nenhum. A boca se abriu, se abriu mais, até chegar nas orelhas, e dentro dela apareceu uma fileira de dentes pequenos, pontudos, brilhantes.
 
O Caçador ficou parado, boca aberta, câmera ainda apontada.
 
Nossa, pensou ele. Esse cara também é da pegadinha. Que porra de máscara boa é essa? Onde ele comprou?
 
Então ele riu. Apontou para a cara do outro, rindo alto:
 
— Caralho, você é bom! Quase me assustou! Vamos, acaba aí, eu já filmei tudo, a gente posta junto, vai ficar famoso!
 
A coisa parou de se mexer.
 
Depois soltou uma risada.
 
Não era risada de gente. Era um som agudo, fino, que doía dentro do ouvido do Caçador, como se alguém estivesse arranhando um quadro negro com uma unha. E enquanto ria, ele continuou a mudar.
 
Os braços cresceram, ficaram tão longos que as mãos roçavam o chão. Os dedos se esticaram, se separaram, viraram tentáculos finos que se mexiam sozinhos. O corpo subiu, subiu, até a cabeça quase tocar o fio do poste. As costas se abriram, e saíram de lá duas asas de couro, como de morcego, mas do tamanho de portas.
 
O sorriso do Caçador morreu na boca.
 
O frio desceu da nuca dele até os pés, tão forte que os dentes começaram a bater. A câmera caiu da mão dele, bateu no chão e quebrou. Ele tentou correr. Mas os pés estavam pregados na calçada. Não se mexiam.
 
A coisa se inclinou para frente, até a cara enorme ficar a palmo da cara do Caçador. Os olhos pretos olhavam dentro dos dele. E falou. A voz parecia mil vozes diferentes, falando ao mesmo tempo, dentro da cabeça dele:
 
— PEGADINHA DE QUEM, HUMANO?
 
Foi o suficiente.
 
O Caçador desapareceu na mesma hora. Como se alguém tivesse apagado uma luz.
 
No lugar dele, ali no meio do beco escuro, vestido com uma roupa de ET ridícula, olhos arregalados de medo, estava o Joel.
 
O Joel normal.
 
Ele não fazia ideia de por que estava ali. Não sabia quem era o Caçador. Não lembrava de ter saído de casa. Tudo o que ele sabia é que estava na frente de uma coisa que não podia existir, e que ele ia morrer ali.
 
Ele fechou os olhos. Esperou o pior.
 
O pior não veio.
 
Quando abriu os olhos, a coisa estava encolhendo. Os braços voltaram ao normal. As asas sumiram. Os dentes pontudos desapareceram. Em poucos segundos, ali estava de novo só um homem magro de roupa preta, com um sorriso enorme no rosto.
 
— Ah — disse o cara, agora com uma voz normal, quase igual a de qualquer pessoa. — Você tem dois dentro da cabeça. Que legal.
 
Ele se agachou, pegou a câmera quebrada do chão, girou ela nos dedos.
 
— Eu também gosto de me transformar — continuou. — Faz parte da graça.
 
Joel não conseguia falar. Só balançou a cabeça, sem entender nada.
 
— Eu sou o que vocês chamam de ET — explicou o cara, como se estivesse dizendo que era padeiro. — Mas não desses que vem aqui para estudar planta ou salvar o planeta. Que tédio, né? Eu vim para me divertir.
 
Ele sorriu de novo.
 
— Meu negócio é susto. Pegadinha. Eu me transformo em gente, vou nessas reuniões de ufo, apareço em beco escuro, vejo a reação dos humanos. É o melhor programa que tem. Essa semana mesmo eu fiz um cara correr tanto que ele pulou dentro de uma lata de lixo. Rimos tanto aqui de cima que quase caímos da nave.
 
Joel engoliu seco.
 
— Então… você não vai me levar? — conseguiu falar, baixo. — Não vai… comer meu cérebro ou algo assim?
 
O cara fez cara de nojo.
 
— Credo. Que coisa nojenta. Cérebro humano tem gosto de sardinha velha. Ouvi dizer. Não obrigado.
 
Ele deu um passo para frente. O sorriso mudou, ficou mais esperto.
 
— Na verdade, eu vim aqui por sua causa. Ou melhor, por causa do outro que mora na sua cabeça.
 
Ele apontou para a testa de Joel.
 
— Semana passada, ele fez uma pegadinha com um primo meu. O Zé. Ele é tímido, veio aqui só para observar, não faz mal a ninguém. Estava andando de roupa normal por um mato quando o seu Caçador pulou atrás de uma árvore com essa roupa ridícula. O Zé levou um susto tão grande que soltou fogo pelo rabo. Não consegue mais andar de nave direito. Toda hora ele treme.
 
Joel sentiu o rosto ficar vermelho.
 
— Ah — disse. — Desculpa. Eu… eu não sabia.
 
— Tudo bem — o ET deu de ombros. — Eu vim para devolver o favor. E acabei encontrando uma alma gêmea.
 
Ele olhou para a roupa de ET que Joel usava, para a câmera quebrada no chão.
 
— Vocês dois são bons nisso. As pegadinhas que eu vi no celular dele… algumas até eu achei engraçadas. Faltava só um toque a mais. De coisa de verdade.
 
Ele estendeu a mão.
 
— Que tal uma sociedade?
 
O Joel não entendeu direito. Mas na hora, no fundo da cabeça dele, ele jurou que ouviu uma voz conhecida, animada, gritando ACEITA LOGO, CARALHO!.
 
Ele estendeu a mão e apertou a do outro.
 
Hoje, Joel continua o mesmo.
 
Trabalha na oficina, almoça o mesmo prato feito, assiste futebol à noite. Para os vizinhos, ele é ainda o homem quieto, sem graça.
 
Mas de vez em quando, ele acorda de manhã com a roupa suja de barro. Com unhas quebradas. Com o celular cheio de vídeos que ele não lembra de ter gravado. Vídeos onde aparece ele, e um cara magro de chapéu, e coisas que não tem explicação — luzes que voam, sombras que mudam de forma, pessoas correndo gritando no meio da rua.
 
Quando isso acontece, Joel não tem mais medo.
 
Ele só sorri, apaga os vídeos e pensa:
 
Acho que o Caçador e o amigo dele se divertiram muito ontem à noite.
 
E ninguém na cidade nunca mais sabe, quando vê uma luz estranha no céu ou uma sombra no beco escuro, se é de verdade… ou se é só os dois, fazendo a maior pegadinha da cidade.

Fim

Por Alex Sandro Alves 

Comentários