Memórias de um técnico de Necrotério


"Este é um conto de ficção baseado em contos que várias pessoas disseram que era verdade. Nomes e lugares foram ocultados ou mudados. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência."

Memórias de um técnico de Necrotério 

O silêncio de um necrotério não é a ausência de som. É o peso do que deixou de ser dito.

​Para a maioria das pessoas, a morte é um evento único, um trauma que rasga a rotina e deixa uma cicatriz. Para mim, ela é o cartão de ponto. Sou técnico de necrotério há mais de uma década. Já limpei o que restou de acidentes brutais, costurei corpos que pareciam quebra-cabeças incompletos e fechei os olhos de quem partiu dormindo.

​Você se acostuma com o cheiro do formol. Você se acostuma com a rigidez dos membros. Mas você nunca se acostuma com o que acontece quando as luzes principais se apagam.

​Abaixo, compartilho três fragmentos do meu diário de plantão. Coisas que os laudos médicos não registram.

​1. O Reflexo no Aço

Data: 14 de Março

​Era um plantão de terça-feira, o tipo de noite em que o necrotério fica tão frio que a sua própria respiração forma névoa. Na mesa central, estava o corpo de um homem na faixa dos quarenta anos, resgatado de um afogamento no rio local.

​O procedimento de rotina corria bem, até que precisei virá-lo de bruços. Quando as costas dele tocaram a mesa de aço inoxidável, um som longo e cavernoso escapou de sua garganta. Eu sei, eu sei... é apenas o ar residual sendo expulso dos pulmões. Biologia pura.

​O problema foi que, ao olhar para a superfície polida do aço abaixo da cabeça dele, não vi o reflexo de um cadáver de olhos fechados. Por uma fração de segundo, o reflexo na mesa mostrava o homem olhando diretamente para mim, com a boca escancarada em um sorriso silencioso. Dei um passo atrás, o coração batendo na garganta. Quando olhei diretamente para o corpo, os olhos continuavam costurados e frios. Mas o aço não mente.

​2. O Peso da Linha

Data: 02 de Junho

​Preparar uma criança é a pior parte do trabalho. Você tenta se desligar emocionalmente, focar na técnica. Aquela menina não tinha mais do que sete anos, vítima de uma parada cardiorrespiratória súbita. Ela parecia uma boneca de porcelana quebrada.

​Enquanto eu dava os nós finais na incisão do tórax, senti uma pressão leve, mas firme, na barra do meu avental de plástico. Sabe quando um filho puxa a roupa da mãe para pedir atenção? Exatamente assim.

​Parei a agulha no ar. O necrotério estava trancado por dentro. Eu estava sozinho. Olhei para baixo e vi a ponta do meu avental ainda levemente amassada, como se tivesse acabado de ser solta. No mesmo instante, o termômetro digital da sala despencou de 16°C para 4°C em cinco segundos. Terminei o trabalho sem olhar para os lados.

​3. A Gaveta Número 4

Data: 19 de Novembro

​Existem regras não escritas aqui. Uma delas é: se você ouvir batidas vindas de dentro de uma das gavetas refrigeradas, você não abre instantaneamente. Você verifica o painel de sinais vitais eletrônicos (que mantemos por segurança). Se o painel estiver zerado, você espera.

​Naquela noite, a gaveta número 4 começou a tremer. Não eram espasmos pós-morte. Eram socos violentos, ritmados, de dentro para fora. O visor digital indicava que o corpo ali dentro — um homem que sofrera um infarto fulminante na manhã anterior — estava a uma temperatura interna de 2°C. Ritmo cardíaco: linha reta.

​Os socos continuaram por exatos dez minutos. O metal da gaveta chegava a estalar com a força dos impactos. Quando o silêncio finalmente retornou, o visor da temperatura subiu bizarramente para 37°C por um minuto, antes de despencar novamente. No dia seguinte, durante a liberação para o sepultamento, abrimos a gaveta. Os dedos do cadáver estavam completamente esfolados e as unhas, arrancadas, presas na parte interna da porta de ferro. O laudo da necropsia original jurava que ele já estava morto há mais de 24 horas antes dos socos começarem.

Até o próximo plantão. Se eu sobreviver a ele.

Nota do Autor:

Se você passar em frente ao Instituto Médico Legal tarde da noite e vir uma janela iluminada, não sinta pena dos mortos que estão ali dentro. Sinta pena de quem precisa fazer companhia a eles.

Por Alex Sandro Alves para o Blog O Escritor Dislexo 

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