O Poderoso Mentecapto


O sol mal havia nascido em Vila Nova do Olvido e Astolfo de Alencastro já encarava o espelho com a solenidade de um imperador. Ajustou a gravata borboleta amarela sobre a camisa listrada e sorriu.

​— Que fardo — suspirou, genuinamente penalizado. — Que fardo pesado é ser a única mente brilhante em um planeta de amebas.

​Astolfo padecia de uma condição raríssima: o que Deus lhe subtraíra em neurônios, compensara em pura, destilada e magnética autoconfiança. Ele não tinha dúvidas; tinha certezas absolutas, todas elas baseadas em uma lógica que só fazia sentido em sua própria cabeça. Para Astolfo, o método científico era uma conspiração de cientistas preguiçosos e a gravidade era "só uma falta de persistência dos objetos".

​Naquela manhã de terça-feira, ele decidiu que era hora de resolver a crise energética do bairro. Munido de um rolo de fita isolante, três bananas d'água e um motor de liquidificador velho, marchou até o poste de alta tensão da praça central.

​O padeiro, Seu Manuel, que assistia à cena da porta da padaria, resolveu intervir:

— Ô, Seu Astolfo... vai mexer nisso aí não, homem! Vai levar um choque que vai te mandar pro espaço!

​Astolfo interrompeu o que estava fazendo, olhou para Manuel com uma mistura de pena e superioridade aristocrática e ajeitou os óculos sem lente (que usava para parecer "intelectualmente intimidador").

​— Manuel, meu caro fornecedor de carboidratos complexos — disse Astolfo, com a voz empolada. — O seu erro, e o erro de toda esta patota que chama de humanidade, é o medo do invisível. A eletricidade só queima quem não tem firmeza no olhar. Os elétrons sentem o medo, Manuel. Eu? Eu domino a física quântica elementar. Observe.

​Astolfo enfiou a banana descascada diretamente no transformador exposto.

​O que se seguiu foi um espetáculo surreal. Uma explosão azulada estourou com o som de um trovão. O transformador cuspiu faíscas verdes, o liquidificador acoplado começou a girar na velocidade do som, emitindo um som que lembrava um hino nacional tocado em uma vuvuzela, e, por algum milagre da mecânica quântica de hospício, toda a iluminação pública da cidade piscou e mudou de cor, transformando a pacata Vila Nova em uma imensa discoteca dos anos 1970.

​Astolfo foi arremessado a três metros de distância, caindo sentado em um carrinho de algodão-doce. Seu cabelo estava moldado em um perfeito formato de cogumelo atômico e sua camisa fumegava.

​Ele se levantou sacudindo a poeira, olhou para o transformador — que agora exalava um agradável aroma de doce de banana caramelizada — e sorriu triunfante para a multidão de boca aberta que se aglomerava.

​— Viram? — exclamou ele, limpando um pedaço de algodão-doce rosa da bochecha. — Exatamente como calculei. Convertei a energia estática em gastronomia urbana. De nada! bando de ignorantes.

​O Grande Assalto ao Banco (Por Engano)

​A fama de Astolfo como "gênio incompreendido" — título que ele mesmo se deu e imprimiu em cartões de visita — o levou ao evento mais bizarro do ano.

​Na quinta-feira, ele entrou na agência do Banco Central local para reclamar que o layout das cédulas de dinheiro estava "esteticamente burro". Coincidentemente, no mesmo minuto, uma gangue de três assaltantes fortemente armados invadiu o local, gritando:

— Todo mundo pro chão! Isso é um assalto!

​Enquanto os clientes se desesperavam e deitavam no piso frio, Astolfo permaneceu de pé, de braços cruzados, batendo o pé com impaciência. O líder dos bandidos, um sujeito enorme com uma máscara de esqui, apontou uma escopeta para o peito de Astolfo.

​— Tá surdo, coroa? Pro chão!

​Astolfo soltou uma risadinha nasalada, aquela de quem acabou de pegar um aluno do primário cometendo um erro crasso de tabuada.

​— Ah, a juventude e sua deplorável falta de leitura — disse Astolfo, empurrando o cano da escopeta para o lado com a ponta do dedo indicador. — Meu jovem, você está segurando esse pedaço de metal de cabeça para baixo. O vetor de ejeção cinética está desalinhado com o eixo da sua ignorância. Se você puxar esse gatilho, o vácuo reverso vai sugar suas calças para dentro do seu próprio estômago. É física básica, seu energúmeno.

​O bandido piscou, confuso. Olhou para a arma. Olhou para o companheiro. Olhou para Astolfo, cuja expressão de certeza absoluta era tão avassaladora que emanava uma aura de autoridade quase mística.

​— Como é? — gaguejou o assaltante, de repente se sentindo muito burro. — Vácuo... o que?

​— Não se envergonhe de sua debilidade intelectual, o sistema de ensino faliu vocês — continuou Astolfo, confiscando a escopeta da mão do homem como se fosse um professor recolhendo um brinquedo proibido. — Agora, saiam daqui antes que eu use a ressonância magnética da minha voz para desintegrar as suas moléculas de cálcio. Andem!

​Os três criminosos, completamente desorientados por aquela enxurrada de termos pseudocientíficos ditos com a convicção de um prêmio Nobel, entraram em pânico.

​— Ele vai desintegrar a gente, chefe! — gritou o mais jovem.

— Corre, que o velho é um bruxo da NASA! — berrou o outro.

​Os assaltantes fugiram tropeçando nas próprias pernas, deixando as armas e os sacos vazios para trás. A agência explodiu em aplausos e vivas. O gerente do banco, chorando de alívio, correu até Astolfo:

— Seu Astolfo! O senhor é um herói! Salvou nossas vidas com sua coragem e intelecto!

​Astolfo suspirou, ajeitando a gravata borboleta com um ar de profundo tédio.

​— Herói não, meu caro. Apenas um homem obrigado a conviver com a mediocridade alheia. Vocês se apavoram por tão pouco... Agora, se me dão licença, vou para casa. Preciso ensinar ao meu gato como falar mandarim através do método da hipnose reversa. Vocês, mortais, simplesmente não acompanham o meu ritmo.

​E assim, O Poderoso Mentecapto marchou de volta para as ruas, de nariz empinado, flutuando na mais pura e inabalável ignorância — provando que, no teatro da vida, às vezes a maior burrice, quando vestida de gala e cheia de marra, passa por genialidade absoluta.

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