O Sol nascia na periferia da cidade, mas a luz que Waldenilson mais gostava era a do poste de rua que iluminava a sua janela. Era ali, embaixo daquele brilho fraco, que ele passava as noites devorando livros. Waldenilson tinha uma infância pobre, daquelas em que o almoço de hoje era a preocupação de ontem. Mas ele tinha um sonho que não cabia no bolso vazio: ele queria estudar e entender o mundo.
O problema é que o mundo não parecia querer entender Waldenilson. Ele não tinha o padrão de beleza que as pessoas elogiam na televisão ou no celular. Suas roupas eram simples, seu rosto era comum demais, e a sua voz... bem, a sua voz não era nada bonita. Não tinha aquela lábia gostosa de ouvir dos grandes políticos, nem a firmeza de um palestrante famoso ou o vozeirão de um locutor de rádio. Quando Waldenilson falava, a voz saía meio fanhosa, meio tímida.
Por causa disso, quase ninguém prestava atenção no que ele dizia. Ele estudou muito, fez cursos por conta própria, leu bibliotecas inteiras e sabia o nome de estrelas, a história de países distantes e como consertar fórmulas complexas. Mas a validação social — aquele respeito que as pessoas dão umas às outras na rua ou no trabalho — nunca veio para ele. Para a maioria dos vizinhos e conhecidos, Waldenilson era apenas um "idiota" que vivia com a cabeça no mundo da lua. Um bobo que sabia palavras difíceis, mas que não servia para nada.
Um dia, Waldenilson juntou os poucos trocados que tinha e foi até a lanchonete da esquina tomar um café com pão na chapa. Sentado na mesa ao lado, estava o homem mais respeitado do bairro: o Professor Torres. Todos ali o chamavam, com a boca cheia de orgulho, de "Doutor Mestre Torres". O professor usava terno, falava bonito e todos batiam palmas para qualquer coisa que ele dizia, mesmo quando ele só falava do tempo.
Waldenilson, tomando coragem, resolveu puxar assunto com o Doutor Mestre. Falou sobre um livro de filosofia que os dois tinham em comum. No começo, o professor olhou com desdém, achando que aquele homem simples não saberia de nada. Mas, conforme Waldenilson explicava suas ideias, o queixo do professor foi caindo. Waldenilson sabia demais. Suas explicações eram brilhantes, profundas e resolviam problemas que o próprio professor passava meses tentando entender.
O professor Torres olhou para os lados, vendo que ninguém na lanchonete estava prestando atenção neles. Ele percebeu o óbvio: Waldenilson tinha uma mente de gênio, mas o mundo nunca o ouviria por causa da sua aparência e da sua voz sem graça.
O "Doutor Mestre" se inclinou na mesa e falou baixinho:
— Waldenilson, escute o que vou te dizer. Você é brilhante, mas as pessoas são cegas. Elas só ouvem quem tem uma embalagem bonita. Se você subir num palco para falar, vão rir de você. Mas se as suas ideias estiverem no papel, escritas por um homem misterioso, todos vão aplaudir.
Waldenilson piscou os olhos, confuso.
— O que o senhor quer dizer, Professor?
— Quero dizer que você deve usar um pseudônimo — um nome falso — e escrever livros. Mas livros de um jeito diferente. Você escreve a história toda, entrega para mim, e nós publicamos. Na capa, pode ir o meu nome, que já é conhecido, ou inventamos um perfil de internet de um grande sábio estrangeiro. Você será o que chamamos no mundo dos livros de ghostwriter, um "escritor fantasma". Você escreve, mas ninguém te vê. Assim, suas ideias finalmente serão ouvidas e você poderá mudar o mundo de verdade.
Waldenilson olhou para o próprio café e depois para as mãos calejadas. Ele entendeu o plano. Era triste saber que ele mesmo precisava se esconder atrás de uma máscara para que suas palavras tivessem valor. Mas, ao mesmo tempo, uma chama acendeu no seu peito.
Ele aceitou a proposta.
Nos meses seguintes, Waldenilson virou o maior fantasma daquela cidade. Ele escrevia páginas e mais páginas de histórias emocionantes, teorias incríveis e conselhos que ajudavam as pessoas a viverem melhor. O Professor Torres colocava o nome dele na capa ou criava perfis falsos na internet com fotos de homens elegantes geradas por computador.
Os livros viraram um sucesso estrondoso. Pessoas na televisão choravam lendo as palavras que saíam daquela casinha simples da periferia. Grandes políticos usavam as frases de Waldenilson em seus discursos para emocionar o povo. O mundo inteiro estava sendo transformado pela mente do rapaz que todos ignoravam.
Às vezes, Waldenilson ia até a mesma lanchonete. Ele via as pessoas comentando no celular sobre o "novo livro do grande autor misterioso". Ele ouvia os elogios, sorria em silêncio e tomava o seu café.
Ele continuava sem o padrão de beleza, sua voz continuava feia e, para os vizinhos, ele ainda parecia o mesmo "idiota" de sempre. Mas, por dentro, Waldenilson sabia a verdade. Ele era o idiota que sabia demais, o homem que, mesmo invisível, guiava o mundo inteirinho com a ponta do seu lápis.
Por Alex Sandro Alves para o Blog O Escritor Dislexo
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