Sabe aquela noite fria de junho no interior do Paraná, daquelas que o vento minuano castiga e a geada ameaça cair na madrugada? Pois é. Estava um frio de rachar o bico.
Na lanchonete do seu Zé, o movimento estava fraco. Só se ouvia o barulho da estufa de salgados estalando e o som da televisão ligada no alto da parede. Passava uma novela dessas de época, das 18 horas, mostrando o Brasil de 1890.
Na tela, o figurino era bonito: chapéu coco, vestidos rodados, e uma mistura danada de gente. Tinha imigrante italiano, árabe que tinha acabado de chegar de navio, e retirante nordestino tentando a vida na cidade grande.
Em uma das mesas, estavam duas figuras conhecidas da cidade: o seu Aquiles e o menos conhecido Sócrates Junior.
Os Dois Lados da Moeda
Para você entender quem era quem:
- Aquiles: Um senhor de mais idade, funcionário público aposentado. O homem não parava quieto: mesmo aposentado, mantinha um escritório particular de contabilidade para ganhar um extra. O problema é que, quase todo noite, ele passava da conta na bebida. Aquela noite não era exceção; ele já estava bem "altinho", com a voz arrastada e a cara vermelha.
- Sócrates Junior: O homem que aparentava ter uns quarenta anos. Esse era estudado de verdade, se interessava por muitos assuntos, filosofia, história, política, religião, inteligência artificial e herdou de seu pai uma característica que o mundo a tempos considera defeito: não ter certeza absoluta de nada, o clássico : só sei que nada sei"! Funcionário público também, mas daqueles com duas faculdades no bolso e cinco especializações. O Junior tinha leitura, sabia falar bonito e intelectual quando queria, mas era calmo, na dele, do tipo que a primeira impressão engana a grande maioria.
A Palavra na TV e a Confusão
De repente, na novela, a cena focou em um comércio antigo. Um vendedor brasileiro foi se despedir de uma moça de origem árabe e soltou com as mãos para o alto:
— Inshalá!
Seu Aquiles, que já estava de olho gordo na TV entre um gole e outro de conhaque, franziu a testa e perguntou alto:
— Ô Junior... você que é "estudado", o que diabo significa essa palavra aí que o turco falou?
Junior, sempre prestativo, puxou o celular do bolso. Abriu o tal do Google, digitou rapidinho e leu a resposta na tela, com toda a paciência do mundo:
— Olha aqui, seu Aquiles. O Google diz que Inshalá tem um significa principal mas dependendo o contexto pode significar outras coisas...
- Fé e Submissão: No islamismo, reconhece-se que o ser humano não tem controle total sobre o futuro. Dizer a expressão lembra que os planos dependem da permissão de Allah.
- Uso Cultural: Tornou-se um hábito linguístico diário em todo o mundo árabe (muçulmanos e não muçulmanos) e em comunidades islâmicas globais, usado sempre que se menciona o amanhã.
- "Sim", "Talvez" ou "Não": Em conversas informais, pode assumir a conotação de "vamos tentar", "talvez" ou até ser usado como uma forma educada de declinar um pedido difícil.
O velho Aquiles deu uma risada zombeteira, bateu o copo na mesa e balançou a cabeça, cheio de autoridade:
— Mentira! Esse troço de Google não sabe de nada! Isso aí tá totalmente errado, rapaz. No meu tempo, na escola, a gente sabia que essa palavra quer dizer outra coisa: Vai com Deus! Você não sabe de nada, e essa internet só inventa moda.
Mais Vale a Paz do que a Razão
Sócrates Junior olhou para o celular. Olhou para o seu Aquiles, que já cambaleava um pouco na cadeira, com os olhos pesados da bebida e aquele orgulho de quem não aceita ser corrigido por um mais jovem.
Com dois diplomas e cinco pós-graduações, Junior sabia exatamente a história e a gramática daquela palavra. Ele tinha todos os argumentos do mundo para dar uma aula ali mesmo e calar a boca do velho.
Mas Junior também tinha outra coisa que não se aprende nos livros: sabedoria de vida. Ele olhou para o frio lá fora, olhou para o copo do seu Arnaldo e pensou: "Para que eu vou gastar meu latim com um homem bêbado e teimoso? Não vai adiantar nada".
Dando um sorriso de canto, Junior guardou o celular no bolso, deu um tapinha leve no ombro do mais velho e disse:
— Sabe de uma coisa, seu Aquiles? O senhor está coberto de razão. Esse Google hoje em dia anda muito errado mesmo. O senhor sabe muito mais.
Seu Aquiles, todo vaidoso, estufou o peito, deu o último gole no conhaque e sorriu, achando que tinha vencido a discussão.
E assim terminou a noite na lanchonete: seu Aquiles como um semi deus feliz com a sua "razão", e Junior quentinho na estômago com o lanche que acabaram de comer e pensando na sua cama e cobertores que o esperava em casa, saboreando antecipadamente a sua santa paz. Afinal, tem hora que ser inteligente é saber a hora de ficar quieto! É muito mais inteligente estar sem stress e em paz do que estar certo e ter razão quando a discussão é contra falsos mestres arrogantes, afinal hoje em dia eles são a maioria e os sabios são a minoria...
Fim
Por Alex Sandro Alves para o Blog O Escritor Dislexo
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