Maurício sempre seguiu à risca o mantra estampado na parede de sua mente:
"Quem conversa sozinho é doido... Rapaz, eu sou chefe, gerente e dono da minha vida. Então, se você me pegar falando sozinho... é porque estou em reunião."
O grande problema era que Maurício levava essa metáfora corporativa literalmente demais.
Segunda-feira, 09:00 – Alinhamento de Expectativas
Tudo começou na fila do pão. Maurício, de braços cruzados, olhava fixamente para a vitrine de salgados e dizia em tom firme:
— Vejam bem, o orçamento para o carboidrato este mês está inflado. Sugiro cortarmos o sonho de valsa e focar no pão na chapa.
A senhora logo atrás na fila deu um passo para trás, segurando a bolsa com mais força. Maurício percebeu o olhar de julgamento, virou-se com a postura impecável de um CEO e disparou:
— Por favor, sem interrupções. Estamos em um alinhamento estratégico de metas calóricas. A ata será enviada por e-mail.
Terça-feira, 14:30 – Gerenciamento de Crise
No transporte público, o cenário escalou. O ônibus estava lotado e Maurício precisava decidir se descia dois pontos antes para caminhar ou se esperava o trânsito fluir. Aos olhos dos outros passageiros, ele parecia estar prestes a ter um colapso. Ele gesticulava, apontava para o teto do veículo e mudava o tom de voz para simular os diferentes setores da sua mente:
- Maurício (Diretor de Logística): — Se descermos agora, otimizamos o tempo de chegada em 12%.
- Maurício (Recursos Humanos): — Mas o cansaço do colaborador está em níveis críticos. Exijo bônus de descanso no sofá mais tarde.
- Maurício (Financeiro): — Negado! Se gastarmos solado de sapato agora, o ROI (Retorno sobre o Investimento) do calçado cai antes de dezembro!
Um jovem que estava sentado ao lado, achando que ele estava com um fone de ouvido invisível de última geração, perguntou:
— Cara, você tá fechando um contrato milionário?
Maurício olhou de soslaio, ajeitou a gola da camisa e respondeu:
— Quase isso. Estou demitindo a minha procrastinação. Mas ela tem um sindicato forte aqui dentro, a negociação está tensa.
O Grande Feedback
Naquela mesma semana, a namorada de Maurício, Mariana, resolveu intervir. Ela o encontrou na cozinha, discutindo acaloradamente com a geladeira aberta sobre o "compliance" de guardar pote de sorvete cheio de feijão.
— Maurício, amor... você precisa parar de dar palestras para as paredes. As pessoas estão achando que você perdeu um parafuso.
Maurício respirou fundo, pegou uma colher como se fosse um microfone corporativo e olhou nos olhos dela com a seriedade de quem apresenta os resultados do trimestre:
— Mariana, o mercado lá fora é cruel. Se eu não fizer esse brainstorming diário comigo mesmo, quem vai definir o core business da minha existência? Eu sou o chefe, gerente e dono da minha vida.
Mariana cruzou os braços, segurando o riso, e entrou na brincadeira:
— Pois saiba que, como investidora-anjo dessa relação, exijo que a próxima reunião de diretoria inclua a lavagem da louça. O prazo de entrega do projeto já expirou.
Maurício pigarreou, olhou para o relógio e anotou em um bloco invisível:
— Anotado. O setor operacional entrará em ação imediatamente. Reunião encerrada.
Fim
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