O cheiro de terra úmida misturado ao aroma de arruda e guaco sempre foi o perfume da nossa casa, assim me disse Maria Rita uma vovó simpática e cheia de histórias para contar, relembrando o passado quando jovem e os tempos eram em parte muito diferentes de hoje em pleno 2026.
No início da década de 1940, o que hoje todos conhecem como a próspera Ivaiporã não passava de um vilarejo rústico, apelidado de Sapecado. A terra roxa, fértil e misteriosa, atraía paulistas, mineiros e filhos de imigrantes europeus. Todos queriam desbravar o centro-norte do Paraná. Todos queriam seu lugar ao sol e deixar um legado.
Dona Arminda, era o coração daquele lugar. Neta de imigrantes de Coimbra em Portugal por parte de mãe e filha de uma nativa indígena, que foi capturada a laço pelo seu avô, um filho de tropeiro paulista: alto, ruivo e rústico conhecido como Juvenal —, ela carregava o sangue da mata e o mistério do além-mar.
Arminda guardava o Segredo. Uma magia antiga que corria nas veias das mulheres da família Bento Alves Dias. Para a paróquia e os marmanjos da venda, eram as "curandeiras e parteiras". Para os desesperados, as "benzedeiras". Para os preconceituosos e fanáticos religiosos de plantão... bruxas.
Mas o sangue que cura também ferve. E as três Marias — Maria de Fátima, Maria Aparecida e Maria Rita —, embora criadas entre rezas e infusões, tínham o mesmíssimo sonho que as mulheres do futuro, de 2026, continuam tendo: o direito de amar livremente e o desejo de casar com quem vosso coração escolhesse.
O problema? O povo de Sapecado achava que o destino das 3 irmãs era a solidão ou o pecado. Mas o amor, meu caro leitor, não pede licença à ignorância.
Os Três Amores Proibidos
Os romances nasceram às escondidas, sob a sombra das perobas e o silêncio do Rio Azul e Rio do Bulha e as vezes até no Rio Ivaí.
- Maria de Fátima, a mais velha, altiva e dona de olhos verdes cortantes, apaixonou-se por Vicente, o filho do homem mais rico e preconceituoso da região, um coronel paulista que jurava que a nossa família tinha "pacto com o coisa-ruim".
- Maria Aparecida, a do meio, doce e de riso frouxo, entregou seu coração a Giovanni, um jovem carpinteiro italiano recém-chegado, cuja família católica fervorosa benzia a calçada toda vez que passávamos por perto.
- Maria Rita, a caçula, impetuosa e mística, envolveu-se com Antônio, um caboclo forte, tropeiro que trazia novidades de fora, mas que era visado pelos poderosos locais por não se curvar a ninguém.
Quando os namoricos de porteira e portões e os bilhetes escondidos nos balaios de ervas vieram à tona, a vila de Sapecado declarou uma guerra silenciosa.
A Conspiração de Sapecado
As fofocas corriam mais rápido que a água do Rio Ivaí. A esposa do delegado e as beatas da igrejinha de madeira formaram uma liga para "salvar a moral dos rapazes". Vicente foi trancado em casa; Giovanni foi ameaçado de demissão da serraria; e Antônio teve seus cavalos dispensados por capangas.
"Homem que casa com a raça de Arminda morre minguado, ou vira bicho em noite de lua!", espalhavam pelas vendas.
O auge da perseguição aconteceu numa tarde de agosto. Uma comissão de moradores, liderada pelo pai de Vicente, marchou até o rancho da família de Dona Arminda. Queriam expulsar toda a família, principalmente a matriarca e as três Marias de Sapecado, alegando que estávam "enfeitiçando" os rapazes com poções de amor e pactos com o coisa ruim.
Dona Arminda saiu à porta, com um maço de alfazema numa mão e o olhar firme de quem herdou a força dos emigrantes de Coimbra e a resiliência dos povos originários indígenas.
— O único feitiço que minhas filhas usam é a beleza e a honestidade delas! — bradou a mãe, a voz ecoando pela mata. — Se os vossos filhos as amam, é porque aqui há verdade, coisa que falta no coração de vocês!
Eles prometeram fogo e boicote. Ninguém mais compraria os remédios, ervas, garrafadas, ajuda nos partos, enfim, ninguém falaria com a família de Dona Arminda. Estávam isoladas. O sonho do casamento parecia desmanchar-se como fumaça de fogueira.
A Noite do Triplo Casamento Secreto
Mas eles esqueceram de um detalhe: elas eram as filhas da benzedeira. Conhecíamos os atalhos da mata, os semáforos do coração e os segredos da noite e, acima de tudo, Vicente, Giovanni e Antônio não eram covardes. Eles não aceitariam perder as mulheres de suas vidas para o preconceito alheio.
Armaram o plano na calada da noite, usando o dialeto secreto que a mãe as ensinou.
Com a ajuda de um padre jesuíta que veio praticamente fugido da Espanha por ter crenças que eram humanas demais para aqueles tempos, que conhecia o valor de Dona Arminda e não dava ouvidos às carolas de Sapecado, marcaram o casamento. Não seria na igreja da vila, sob os olhares de julgamento. Seria no santuário da família: a clareira à beira do Rio Ivaí, sob o manto de estrelas do céu paranaense.
Naquela noite, o preconceito de Sapecado tentou agir uma última vez. Capangas do pai de Vicente vigiavam as estradas principais. Porém, a magia da terra roxa jogou a favor das filhas da Benzedeira. Uma névoa densa e incomum subiu do rio, cobrindo as trilhas principais e desorientando quem tentava os caçar.
Enquanto a vila estava cega pela neblina, as três Marias caminharam pela floresta.
- Maria de Fátima vestia um linho branco com ramos de arruda no cabelo.
- Maria Aparecida trazia flores de laranjeira colhidas às pressas.
- Maria Rita usava um vestido que pertenceu à nossa avó indígena, orgulhosa de suas raízes.
Na clareira iluminada por tochas de cera de abelha, os três noivos esperavam. Quando as mãos se uniram perante o sacerdote jesuíta, Dona Arminda sussurrou uma bênção antiga, daquelas que fecham o corpo contra a inveja e abrem os caminhos para a prosperidade.
A Bênção da Benzedeira para o Casamento das Filhas
(Com um ramo de arruda e alfazema na mão, fazendo o sinal da cruz sobre as noivas):
"Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Deus te criou, Deus te gerou. Eu te pari, eu te criei, e com a força da terra e do céu hoje te benzo e te abençôo.
Que o amor que te une ao teu escolhido seja forte como a peroba da mata e firme como a rocha que o rio não move. Que os olhos do mal não os vejam, que as línguas da inveja não os alcancem, e que toda a maldade lançada contra essa união caia por terra antes de cruzar o vosso caminho.
Se te jogaram quebramanto, mau-olhado ou feitiço de solidão, com esta arruda e alfazema eu corto, com a água viva eu limpo, com o manto de Nossa Senhora eu cubro.
Onde houver pedra, que nasça flor. Onde houver ódio, que vença o amor.
Vão com Deus, minhas filhad, trilhar os teus destinos, porque o que Deus uniu e a mãe abençoou, homem nenhum na terra tem o poder de desmanchar.
Amém."
(Ao final da reza, Dona Arminda salpicou algumas gotas de água benta e chá de sete ervas ao redor do casal para purificar os caminhos).
O nó foi atado. Três casamentos, três promessas.
O Legado
No dia seguinte, quando o sol nasceu e a névoa dissipou-se, Sapecado acordou com a notícia. As filhas da benzedeira haviam casado. As famílias dos noivos, vendo a determinação dos filhos e temendo o escândalo de uma ruptura pública, tiveram que engolir o orgulho. Com o tempo, as curas de Dona Arminda continuaram salvando os filhos daqueles mesmos que a apedrejavam, e o preconceito foi, aos poucos, perdendo as forças ante a força do trabalho e do amor.
Sapecado cresceu, tornou-se Ivaiporã. As matas viraram avenidas, os desbravadores viraram nomes de ruas. Mas se hoje, em pleno 2026, as mulheres andam de cabeça erguida por essas terras e escolhem com quem casar, é porque no passado, as três filhas da benzedeira tiveram a coragem de desafiar o mundo por amor. E essa, meus leitores, é a magia mais poderosa que existe.
FIM
Um conto de ficção de Alex Sandro Alves para o Blog O Escritor Dislexo
⚠️
Qualquer semelhança com a história de qualquer leitor é mera coincidência, pois seja onde for, na época que for o romance e amor é universal e a história apenas se repete...
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