A obsessão de Elias Vanhagen não nasceu do mal, mas de um vazio que o cinema e a literatura de horror tentaram preencher por décadas. Enquanto outras crianças temiam o bicho-papão, Elias decorava os diálogos de Nosferatu e as descrições de cemitérios de H.P. Lovecraft.
Após o colapso nervoso que o afastou da civilização, Elias encontrou seu refúgio: uma chácara isolada no interior do Paraná, cercada por araucárias centenárias e uma neblina que parecia brotar da própria terra roxa.
O Ritual da Lua Cheia
Elias não era um ladrão comum. Ele não buscava joias ou pertences valiosos. Ele buscava a memória de pedra. Sob o brilho argênteo da lua cheia, ele dirigia sua velha picape por estradas de terra batida até cemitérios esquecidos em vilarejos rurais.
Para Elias, cada lápide roubada era um troféu de uma vida que ele agora "protegia". Com ferramentas de precisão e uma força física alimentada pelo delírio, ele removia os blocos de granito e mármore, deixando para trás apenas covas anônimas e o silêncio.
A Coleção Particular
No fundo de sua chácara, oculto por uma cortina de pinheiros, Elias construiu seu "Santuário de Silêncio". Eram mais de quarenta lápides, organizadas em fileiras perfeitas.
- A "Dama de Mármore": Uma lápide de 1890, adornada com um anjo chorando.
- O "Pequeno Soldado": Um bloco simples de granito, roubado de um cemitério de imigrantes alemães.
- O Vazio: Um pedestal que ele reservava para a peça central da sua coleção.
O Sussurro do Solo
A loucura, no entanto, tem um preço. Com o passar dos meses, Elias parou de ouvir o rádio ou ler seus livros. O som predominante em sua chácara era o ranger das pedras.
Ele começou a notar que, nas noites de geada, as lápides pareciam exudar uma umidade escura, como se as pedras estivessem suando... ou chorando. Ele passava horas conversando com os nomes gravados: “Aqui você está seguro, Bento”, “Ninguém vai pisar em você aqui, Maria”.
"Um colecionador não possui objetos; ele é possuído pela história que eles carregam." — Anotação no diário de Elias.
A Última Aquisição
Na última lua cheia de um inverno rigoroso, Elias decidiu buscar a "Coroa da Coleção". Ele viajou até um cemitério abandonado na região de Guarapuava. Lá, encontrou uma lápide negra, pesada, sem nome, apenas com uma data: o dia do seu próprio nascimento.
Ele a trouxe para casa, mas o peso parecia aumentar a cada quilômetro. Ao instalá-la no centro do seu jardim macabro, a atmosfera da chácara mudou. O silêncio não era mais pacífico; era faminto.
O Desfecho
Naquela noite, Elias acordou com o som de centenas de passos sobre a terra seca. Ao olhar pela janela, viu sua coleção. As lápides não estavam mais presas ao chão. Elas estavam mais próximas da casa.
A cada piscar de olhos, o círculo de granito e mármore se fechava. Elias tentou correr, mas a terra roxa do Paraná, úmida e pesada, agarrou seus pés como mãos esqueléticas. No centro do seu santuário, a lápide negra e sem nome finalmente revelou sua inscrição sob a luz do luar.
O nome de Elias Vanhagen apareceu, entalhado por mãos invisíveis.
Hoje, quem passa pela estrada de terra próxima à chácara abandonada jura ouvir o som de um cinzel batendo contra a pedra. Dizem que o jardim de lápides continua lá, mas agora há uma pedra a mais. Uma pedra que ninguém ousa tocar, pois o colecionador, finalmente, tornou-se parte da sua obra mais preciosa.
FIM
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