Em tempos que cantar também ficou perigoso

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Nada acontece por Acaso, se está lendo este post, era para estar aqui...Não existe acasos ou acidentes carmicos ou cósmicos...

Quando pensei em escrever este post, me lembrei do filme Elvis Presley, e de uma parte do filme que o cantor lembrou de uma pregação de um pastor evangélico em sua infância, quando o mesmo dizia " Quando Falar for perigoso demais, cante".
  
As décadas se passaram e hoje em dia em países onde o direito de liberdade de expressão foram totalmente sequestrados de todos, famosos ou simplórios cidadãos, a ponto de quem cante uma canção pode ser até preso em presídios e sua vida destruída pelos donos do poder de muitos países, hoje em dia até cantar pode ser perigoso...

Viver sob a constante vigilância do olhar público, onde a patrulha ideológica nas redes sociais e o fantasma dos processos judiciais moldam o debate, transformou o ato de cantar em uma espécie de campo minado. 

Como académico, estúdioso de muitos assuntos, um ser pensante eclético  e colecionador de sabedorias,sei  que tenho direito a minha própria opiniãove visão do mundo, que me dá o direito de atuar também como crítico musical, afinal tenho ouvidos e décadas de existência e milhares de horas ouvido música boas e não tão boas assim, observo que o perigo não reside mais apenas no confronto direto com um Estado censor, mas na pulverização da censura por meio de algoritmos, linchamentos virtuais e interpretações jurídicas distorcidas de direitos de personalidade ou difamação.

​Se hoje escolher a canção errada pode resultar em cancelamento ou banco dos réus, a sobrevivência do artista exige o resgate de uma tecnologia sofisticada e histórica da música brasileira: a alta costura da metáfora.

​O Manual de Sobrevivência Prática: Como se Proteger

​Para o intérprete contemporâneo que deseja se blindar sem abrir mão da dignidade artística, a proteção jurídica e digital não se faz com silêncio, mas com inteligência técnica.

  • Abandone o Panfleto e Abrace a Poesia: O "cancelamento" e os processos judiciais alimentam-se do literal. Quando uma letra é excessivamente direta, ela oferece a prova material que o acusador ou o tribunal precisam. O segredo é escolher obras que digam tudo sem pronunciar uma única palavra proibida.
  • O Princípio da Pluralidade de Sentidos (Polissemia): A melhor defesa jurídica é a ambiguidade. Uma canção deve permitir duas, três ou quatro interpretações válidas. Se o acusador alegar que você está fazendo uma crítica política ofensiva, a estrutura da letra deve dar sustentação para que a defesa demonstre que se trata apenas de um drama amoroso ou de uma reflexão existencial.
  • Desvie o Foco dos Personagens Reais: Evite canções que façam alusões óbvias a figuras públicas contemporâneas. O foco do cancioneiro de competição deve ser a condição humana, o tempo e as contradições sociais abstratas.

​O Repertório Blindado: Canções Belas e Prontas para Festivais

​Para vencer um festival de competição com aclamação dos jurados e aplausos do público — mantendo-se absolutamente intocável diante de patrulhas e processos —, o segredo é recorrer ao lirismo clássico da nossa música. As opções abaixo unem sofisticação melódica, arranjos grandiosos e letras impecáveis.

​1. "O Bêbado e a Equilibrista" (João Bosco / Aldir Blanc)

​Eternizada na voz de Elis Regina, é a obra-prima do equilíbrio. Sob a justificativa poética de homenagear a figura chapliniana do vagabundo, a letra constrói imagens pungentes sobre a esperança.

  • Por que é segura: Juridicamente, é uma crônica urbana e poética sobre a fragilidade e a persistência humana.
  • Força em Festivais: Tem uma das linhas melódicas mais ricas do samba-choro, permitindo interpretações vocais dramáticas, transições de dinâmica crescentes e um refrão que explode no peito dos jurados.

​2. "Atrás da Porta" (Chico Buarque / Francis Hime)

​Se o ambiente político está polarizado e perigoso, o refúgio na dor do amor maduro e visceral é uma escolha tática brilhante.

  • Por que é segura: É, rigorosamente, uma canção de amor e ruptura. Não há flanco para leituras ideológicas ou processos.
  • Força em Festivais: Exige um virtuosismo vocal extremo. A melodia de Francis Hime caminha por harmonias densas e modulações complexas. Um intérprete que domina a sustentação de notas e a entrega emocional dessa música pontua alto em qualquer corpo de jurados técnico.

​3. "Sangue Latino" (João Ricardo / Paulinho Mendonça)

​Sucesso avassalador com o Secos & Molhados, essa canção trabalha com o conceito de destino, ancestralidade e resiliência ("E os meus olhos coloridos/Viram coisas de que a minha mente esqueceu").

  • Por que é segura: A letra transita pela identidade latino-americana de forma épica, mística e quase arqueológica, sem amarras com debates partidários ou conjunturais.
  • Força em Festivais: O arranjo original possui uma pulsação rítmica e uma dramaticidade pop que cativam plateias imediatamente. Permite um desenho cênico forte e uma interpretação vocal imponente, ideal para grandes palcos.

​4. "Romaria" (Renato Teixeira)

​O mergulho no Brasil profundo através da religiosidade e da simplicidade do homem do interior ("Sou caipira, Pirapora nossa senhora de Aparecida").

  • Por que é segura: Trata da fé, da jornada pessoal e da conexão com a terra. É universal, respeitosa e toca no inconsciente coletivo sem gerar arestas.
  • Força em Festivais: Embora pareça simples, sua força reside no poder de comunicação e na beleza melódica. Festivais adoram arranjos que começam íntimos (voz e violão ou piano) e crescem para uma massa sonora orquestral no refrão, criando um momento de catarse coletiva.
  • ​A história da música nos ensina que as restrições ao redor do criador muitas vezes geram os saltos estéticos mais impressionantes. Quando o óbvio se torna perigoso, a arte se recusa a morrer: ela apenas se veste com roupas mais bonitas e aprende a dançar nas frestas das palavras.

por Alex Sandro Alves para o Blog O Escritor Dislexo 

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