Muita gente acha que ter a casa cheia é sinal de felicidade. Thomas, um brasileiro comum que já passou dos 50 anos, descobriu cedo que a conta não é bem essa.
Desde pequeno, Thomas percebeu uma coisa estranha: os "amigos" só apareciam quando ele tinha algo a oferecer. Se ele tinha uma bola de couro, o quintal enchia. Se a bola murchava, o quintal esvaziava. Ele entendeu logo cedo que não tinha amigos de verdade, tinha apenas colegas de ocasião.
Usando minha licença poética de escritor, poderia parafrasear que Thomas era sugado cotidianamente em toda sua vida por legiões de Dementadores, como na obra Harry Potter.
O Homem Utilitário
A vida de Thomas seguiu esse ritmo. Ele era como uma ferramenta: enquanto funcionava e resolvia o problema dos outros, todo mundo queria por perto. Mas, quando ele não tinha uma vantagem para dar — fosse um dinheiro emprestado, um favor ou uma carona — ele era descartado.
"Para essa gente, eu era igual a papel higiênico usado: servia para limpar a sujeira deles e depois ia direto para o lixo", pensava ele, sem raiva, apenas observando a realidade.
A Decepção que Vem do Sangue
Aos 50 anos, veio o golpe que derruba qualquer um: Thomas percebeu que nem com a família podia contar. Sabe aquele churrasco de domingo? Só era bom enquanto ele pagava a carne. Quando ele precisou de um ombro amigo para desabafar ou de uma mão estendida nos momentos mais criticos, as portas se fecharam e os celulares pararam de tocar e de atender suas mensagens...
Muita gente no lugar dele ficaria amargurada, xingando o mundo. Mas Thomas é diferente, e com o tempo foi se aperfeiçoando na arte de sobreviver.
O Jeito Estóico de Viver
Thomas a partir dos anos aprendeu a viver de um jeito que os estudiosos chamam de estoicismo, mas que o povo da roça conhece como "aguentar o tranco sem dar coice".
- Ele não julga mais ninguém: Mesmo sendo apontado na rua e rotulado de "estranho" ou "solitário" o tempo todo, ele não devolve o xingamento.
- Ele agora aceita o que vem: Se o dia é de sol, ele agradece. Se é de chuva, ele se recolhe.
- Ele aprendeu a viver com o básico: Não precisa de luxo para provar nada a ninguém.
Thomas entendeu que a paz de espírito vale mais do que uma mesa cheia de gente falsa. Ele não espera nada de ninguém, e por isso, ninguém consegue decepcioná-lo mais.
Céu ou Inferno?
Dizem por aí que, se o Céu realmente existir, Thomas já tem o seu lugar garantido na primeira fila, só pela paciência e bondade que teve com quem não merecia.
Agora, se o Purgatório ou o Inferno forem aqui na Terra, Thomas já pode ser considerado um funcionário antigo. Ele está estagiando no sofrimento há décadas, mas faz isso com a cabeça erguida e o coração tranquilo.
No fim das contas, Thomas descobriu a maior verdade de todas: antes só e em paz, do que rodeado de gente que só te vê como um degrau.
Este conto é uma reflexão sobre a resiliência humana e a busca pela paz interior, mesmo quando o mundo parece nos dar as costas.
FIM
Comentários
Postar um comentário