​A Filosofia do "Gostoso e Barato"


Puxa a cadeira, meu caro. Senta aí, deixa eu te servir um copo americano cheio de café passado na hora — ou uma cerveja estupidamente gelada, daquela marca que não tem nome em inglês, mas que o dono do bar conhece pelo apelido.

​Olha em volta. O mundo hoje parece uma vitrine frenética de rede social, onde se você não comer um hambúrguer com folha de ouro, descansar numa praia das Maldivas ou postar um prato com nome francês que você mal sabe pronunciar, parece que a sua vida não valeu a pena. Mas deixa eu te contar um segredo que a classe média raiz descobriu e que os filósofos de Oxford ainda estão tentando decifrar em teses de mil páginas: a felicidade não é um banquete de gala; ela é aquele petisco perfeito de estufa de boteco.

​Essa turma que  mencionei — e que merece um brinde — desvendou a verdadeira alquimia da existência. Eles entenderam que a engrenagem do mundo quer te vender a ideia de que o prazer está na escassez e no preço alto. "Se custa o olho da cara, deve ser bom", dizem os influencers. Mas o sábio do subúrbio e do interior sabe que o segredo é a repetição do simples.

​A Filosofia do "Gostoso e Barato"

​A matemática deles é brilhante. Pensa comigo: quantas vezes no ano você consegue ir a um restaurante três estrelas Michelin que te cobra o valor de uma prestação do carro por um prato que parece pintura abstrata? Uma? Duas, se você estourar o limite do cartão?

​Agora, me diz: e aquele pão na chapa com a borda queimadinha e o café com leite perfeito na padaria da esquina? E aquela feijoada de sábado que o vizinho faz no quintal, onde o maior luxo é o pagode tocando no radinho de pilha? E o pastel de feira de domingo, com direito a caldo de cana escorrendo pelo braço?

​Essa galera descobriu que a felicidade é um jogo de frequência, não de intensidade elitizada. É a arte de ter o que se gosta diversas vezes.

​Se a felicidade é o destino, o "simples e recorrente" é o passaporte carimbado toda semana. O "caro e gourmetizado" é só um visto burocrático que você consegue uma vez na vida e olhe lá.


​O Fim do Império "Instagramável"

​O maior livramento do homem moderno é quando ele para de comer com os olhos dos outros. O prato não precisa ser instagramável, ele precisa ser gostoso. A mesa não precisa de velas aromáticas importadas, ela precisa de uma boa conversa e de gente que dá risada alto, sem medo de parecer deselegante.

​Quando você liberta o seu prazer do julgamento alheio, acontece uma mágica no seu bolso e na sua mente:

  • ​A marca da cerveja importa menos do que a temperatura dela e a companhia.
  • ​O carro não precisa ser do ano com painel de nave espacial, precisando apenas te levar para ver as pessoas que você ama com um som bom tocando no rádio.
  • ​O churrasco não precisa de corte nobre com nome em inglês; uma boa linguiça bem assada e uma maionese de batata legítima fazem o mesmo milagre na alma.

​O Luxo de não precisar de Luxo

​No fundo, o que cabe no bolso e traz prazer é a maior rebeldia contra o sistema. Enquanto o mundo se descabela trabalhando 14 horas por dia para pagar o carnê da ostentação, o sujeito que entendeu o espírito da coisa trabalha o justo, paga suas contas e gasta o que sobra com pequenos rituais de puro contentamento. Ele não quer impressionar ninguém. Ele só quer viver.

​Então, meu amigo, o segredo da felicidade dessa classe média sábia é a paz de espírito. É saber que o topo do mundo não é um resort cinco estrelas; é o sofá de casa num domingo chuvoso, assistindo a um filme antigo, comendo uma pipoca feita na panela com óleo e sal, e sabendo que segunda-feira a vida continua, mas que os pequenos prazeres de sempre estarão lá, esperando na próxima esquina, sem cobrar juros e sem precisar de filtro de internet.

​Saúde a isso! E garçom, traz mais uma porção de batata frita — daquela comum mesmo, com bastante sal.

Autor: Alex Sandro Alves para o Blog O Escritor Dislexo 

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