Sonhar Não Custa Nada
Aos 51 anos, Sandro carregava no rosto os vincos de quem viveu entre a ciência e a fé, mas encontrou o destino no laboratório do setor público. Sua vida era pautada pelo ritmo dos pedidos, rotina dos exames, dos carimbos, dos relatórios e do cuidado com a saúde alheia. No fundo de uma gaveta da escrivaninha, ele guardava um caneco de cerâmica — um souvenir que alimentava um desejo antigo: a Oktoberfest.
As situações da vida nunca colaboraram. Em sua juventude, a dedicação era outra: Sandro tentou várias vezes seguir a vocação para o sacerdócio na vida religiosa, passando anos em seminários, mas o chamado do mundo ou as curvas do destino o trouxeram de volta. Por causa dessa busca espiritual, nunca se casou, mantendo uma vida solitária e resiliente. Mas ele descobriu um refúgio gratuito. Aprendeu que, ao fechar os olhos e respirar fundo, a imaginação era a passagem mais barata para Rolândia, Blumenau ... ou para a própria Munique.
O Despertar dos Sentidos
Naquela noite de sexta-feira, o cansaço de um plantão não trouxe apenas o sono, trouxe a festa. Sandro não estava mais em seu quarto silencioso de solteiro. Ele caminhava sob um pórtico de madeira entalhada, e o ar não cheirava a detergente neutro laboratorial, desinfetantes de uso hospitalar, reagentes para testes laboratoriais e muito menos o cheiro do talco das luvas descartáveis, mas sim a malte torrado e canela.
O som das bandas de metais reverberava em seu peito. Ele sentia o peso real de uma caneca de cristal na mão direita. O primeiro gole foi uma explosão: uma Marzen gelada, com notas de caramelo que pareciam dançar em sua língua. Ele não apenas via; ele sentia a textura do Pretzel salpicado de sal grosso e o calor fumegante de um Eisbein (joelho de porco) desmanchando no garfo.
"A vida pode ser de renúncias," pensou o Sandro onírico, "mas este chucrute é uma bênção."
O Encontro: Sabine Koch
Foi entre o compasso de uma polca e outra que o mundo de Sandro parou. No meio da multidão vibrante, ele a viu. Ela não usava apenas um dirndl tradicional; ela carregava um brilho no olhar que parecia traduzir décadas de histórias.
Seu nome era Sabine Koch, chefe de restaurante 5 estrelas em Alphaville estado de São Paulo. Uma alemã que trocara o frio da Saxônia pelo calor do Brasil anos atrás, mas que nunca deixara de celebrar suas raízes. O encontro foi o que os poetas chamam de "amor à primeira vista", mas que Sandro, com sua bagagem teológica, definiu como "uma epifania".
- O Toque: Quando ela aceitou seu convite para dançar, a mão dela na dele parecia mais real do que qualquer amostra ou reagente laboratorial que ele já segurara.
- O Aroma: Ela cheirava a baunilha e a uma brisa fresca que ele nunca soube explicar.
- A Conversa: Sabine falava um português com sotaque arrastado, rindo de como o Brasil a tinha ensinado a colocar "borogodó" na tradição alemã.
Eles dividiram uma porção de Apfelstrudel. Sandro sentiu o contraste da maçã quente com o sorvete de creme. Naquele momento, ele não era o farmacêutico solitário ou o ex-seminarista; ele era um homem vibrante, vivendo o romance que a realidade e os votos do passado haviam lhe negado.
A Manhã e o Legado
O despertador tocou às 06:00. Sandro abriu os olhos e encarou o teto branco do quarto. O silêncio da manhã substituiu o som das trombetas. Por um segundo, ele ficou triste, sentindo o gosto da cerveja e a presença de Sabine desaparecerem de sua memória sensorial.
No entanto, ao se levantar para mais um dia de trabalho no setor público, ele percebeu algo diferente. O corpo não pesava tanto. Ele caminhou até a cozinha, assobiando uma melodia alemã que nunca tinha ouvido nas missas ou no rádio. Ao passar pelo espelho, sorriu.
A viagem não tinha custado um centavo, mas o tinha enriquecido por inteiro. Ele sabia que, na próxima noite, Sabine estaria lá novamente, esperando por ele com uma caneca cheia e o coração aberto. Afinal, como ele mesmo dizia enquanto passava o café:
"O destino pode até ser pão-duro, mas sonhar... sonhar não custa nada."
O autor
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