Quid Pro Quo: Onde foi parar a nossa reciprocidade?

Quid Pro Quo: Onde foi parar a nossa reciprocidade?

​Você já parou para pensar que, hoje em dia, quase tudo parece um contrato de balcão? "Eu te dou isso, se você me der aquilo". No latim, existe uma expressão para isso: Quid pro quo. Antigamente, era usada até por farmacêuticos quando precisavam substituir um remédio por outro. Era uma troca justa.

​Mas, trazendo para o nosso dia a dia aqui na América Latina, onde a gente gosta de um abraço, de uma conversa fiada no portão e de ajudar o vizinho, parece que o "Quid pro quo" virou a única regra que sobrou. E isso é um sintoma de algo que está morrendo: a reciprocidade.

​A Troca vs. A Entrega

​Existe uma diferença enorme entre fazer uma troca e ser recíproco:

  • O Quid Pro Quo é frio: É o "toma lá, dá cá". Se eu te convido para o meu churrasco, espero que você me convide para o seu. Se eu curto sua foto, você tem que curtir a minha. É uma contabilidade chata, onde ninguém quer sair perdendo um centavo de atenção.
  • A Reciprocidade é quente: Ela nasce da vontade de retribuir o bem que nos foi feito, mas sem uma planilha de Excel na mão. É natural. Você ajuda alguém porque sentiu que aquela pessoa foi genuína com você, e não porque está "comprando" um favor futuro.

​A Sociedade do "O que eu ganho com isso?"

​Vivemos em um tempo onde as pessoas estão cada vez mais isoladas em suas telas, calculando o custo-benefício de cada amizade. Se o outro não tem um cargo bom, se não pode me agenciar um contato ou se não infla o meu ego, eu não invisto.

​A reciprocidade está em falta porque ela exige algo que ninguém quer dar: tempo e vulnerabilidade. Para ser recíproco, você precisa se importar. E importar-se dá trabalho.

​O Conto do Escritor Dislexo

​Imagine dois vizinhos. Um deles sempre oferece um café quando vê o outro chegar cansado. Ele não quer o café de volta; ele quer a conexão. Mas o outro, viciado no "Quid pro quo", logo pensa: "O que ele quer de mim? Amanhã vai me pedir para vigiar a casa".

​A gente desaprendeu a receber porque tudo agora parece uma dívida. Transformamos a vida em um grande mercado persa, onde até o afeto tem etiqueta de preço.

​Conclusão

​O latim é bonito nos livros, mas na vida real, o "isto por aquilo" está matando a nossa capacidade de sermos humanos de verdade. A reciprocidade não é uma transação comercial; é o combustível que mantém a sociedade unida sem precisar de um contrato assinado.

​Talvez o segredo para uma vida menos amarga seja parar de contar os favores e começar a viver os momentos. Menos cálculo, mais café compartilhado. Afinal, no final das contas, o que a gente leva dessa vida não são os "quids" que acumulamos, mas as mãos que seguramos sem pedir nada em troca.

O que você acha? No seu dia a dia, você tem sentido mais reciprocidade ou mais "negociações" disfarçadas de amizade?

Fim

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