O Jardineiro e a Montanha de Vidro

O Jardineiro e a Montanha de Vidro

​Havia um homem que herdara um pequeno pedaço de terra na base de uma montanha feita inteiramente de vidro e obsidiana. O solo era seco, mas as convenções daquela aldeia diziam que a honra de um homem estava em "vencer a terra". Desistir de uma plantação era visto como o maior dos fracassos; morrer tentando, porém, era motivo de estátua na praça.

​Durante vinte anos, o homem feriu suas mãos contra os estilhaços de vidro. Ele carregava baldes de água por quilômetros, apenas para ver o solo estéril engolir o líquido sem devolver um único broto. Seus dedos eram cobertos de cicatrizes, e suas costas, curvadas pelo peso de uma luta que não lhe dava frutos, apenas dor.

​Certo dia, um viajante parou à sua cerca e perguntou:

— Por que você continua a sangrar sobre este vidro?

​O jardineiro, com o olhar turvo pelo cansaço, respondeu com as frases que aprendeu no berço:

— Porque sou um guerreiro. Porque a persistência é a virtude dos fortes. Porque recuar é para os covardes.

​O viajante sorriu com uma tristeza profunda e disse:

— Às vezes, meu amigo, continuar a socar a parede não prova que você tem um punho forte, prova apenas que você não tem juízo. A verdadeira covardia não é ir embora; é ficar por medo do que os outros vão dizer, enquanto sua vida escorre pelos vãos dos dedos.

​Naquela noite, o homem olhou para suas mãos e para a montanha de vidro. Ele percebeu que sua "persistência" era, na verdade, uma algema de orgulho. Ele não estava lutando por amor à terra, mas por pavor da palavra "derrota".

A verdadeira covardia era o medo de admitir que o caminho estava errado.

​Ao amanhecer, ele não pegou a enxada. Pegou apenas uma pequena trouxa de roupas e caminhou na direção oposta, rumo ao vale. Lá, encontrou uma terra negra e macia, onde o rio passava sem que ele precisasse implorar por uma gota.

​Os aldeões o chamaram de fracassado. Ele, porém, sentou-se à sombra de uma árvore que ele não precisou sangrar para plantar. Enquanto os outros morriam de exaustão para provar que tinham razão sobre o solo de vidro, ele colhia o fruto do silêncio e da calma.

​Ele aprendeu a maior das parábolas: Um navio que se recusa a abandonar um porto em chamas para não "desistir da viagem" não é corajoso; é apenas lenha para o fogo. Ter paz é possuir o horizonte; ter razão é, muitas vezes, ser dono apenas de um túmulo bem decorado. Ele escolheu o horizonte.

Por Alex Sandro Alves - O Escritor Dislexo 

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