O Guichê de Saída: A Vida como um Grande Shopping Center

Por um Observador do Cotidiano

​Abrimos os olhos e, antes mesmo do primeiro café, a vitrine já está montada. Acordamos em um imenso corredor de granito polido, sob luzes de LED que nunca piscam, cercados pelo zumbido incessante do consumo. A constatação é tão árida quanto real: a vida, neste plano físico e biológico, transformou-se em um grande shopping center a céu aberto.

​Não se engane quem pensa que o comércio se restringe à troca de papel-moeda por mercadorias tangíveis. Somos, por natureza, seres de escambo. Negociamos o tempo pelo salário, o silêncio pelo convívio, a imagem pela aceitação. Estamos o tempo todo "comprando" ideias e "vendendo" versões de nós mesmos nas prateleiras digitais da existência. É um ciclo frenético de reposição de estoque; mal adquirimos o desejo da temporada, e o manequim da esquina já veste algo que nos faz sentir obsoletos.

​A biologia, esse gerente rigoroso, também joga as regras do mercado. Nossas células negociam energia por oxigênio em um metabolismo que é, em essência, uma transação química de alta performance. Consumimos o mundo para manter a máquina funcionando, enquanto a indústria ao redor nos convence de que a felicidade está a apenas um "clique" ou a uma parcela de distância. Vivemos na ilusão de que o corredor é infinito e que as escadas rolantes sempre nos levarão para um andar acima, mais luxuoso, mais brilhante.

​Entretanto, todo shopping tem um horário de fechamento.

​O frenesi das sacolas e o brilho das vitrines encontram seu limite intransponível na frase que os antigos sussurravam nos ouvidos dos generais vitoriosos: Memento Mori. Lembre-se de que você é mortal. É o balde de água fria na vaidade do consumidor. No final do dia, o segurança bate as chaves, as luzes diminuem e percebemos que o "guichê de saída" não aceita devoluções, nem cartões de crédito.

​O Memento Mori não é um convite ao niilismo, mas sim à consciência. É o lembrete de que, embora estejamos inseridos nesse ciclo de compra e venda, o que realmente levamos não cabe em sacolas de grife. Quando o plano físico reclama sua validade, as prateleiras se tornam irrelevantes.

​A vida é, de fato, esse shopping pulsante e caótico. Mas a sabedoria reside em saber passear por ele sem esquecer que, lá fora, sob o céu que não tem preço, o que conta é o que fomos quando não havia nada para comprar. No fim, a única coisa que não está à venda é a paz de ter vivido com a dignidade de quem sabe que o shopping, um dia, fecha as portas.

Alex Sandro Alves _25/04/2926

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