O Fantasma da Copa

Aviso: Os eventos narrados em "O Fantasma da Copa" são frutos da imaginação criativa de O Escritor Dislexo. Esta obra de ficção não possui vínculo com pessoas, hospitais ou fatos reais. Qualquer semelhança encontrada entre estas páginas e o mundo real é puramente acidental... ou um reflexo do acaso.


O Fantasma da Copa 


O café no Hospital de Caridade de São Roque nunca mais teve o mesmo sabor depois que Dona Zulmira partiu. Mas, para o terror das novas funcionárias, o problema não era a ausência dela, mas sim a sua insistente e invisível permanência.

​A Rainha da Garrafa Térmica

​Durante quarenta anos, Zulmira foi a soberana absoluta da copa. No pequeno hospital paranaense, onde o cheiro de éter se misturava ao aroma de café coado, ela não era apenas uma funcionária; ela se via como a viga mestra que impedia o teto de desabar. Embora recebesse o mesmo salário minguado que as outras, Zulmira portava seu avental como se fosse um manto real.

​Sua especialidade não era o serviço, mas o extermínio. Nenhuma novata durava um mês. Zulmira tinha um arsenal de truques: salgava a dieta dos hipertensos para culpar a estagiária, escondia chaves de armários e sussurrava venenos no ouvido do diretor administrativo. Ela sentia um prazer quase erótico ao ver uma "atrevida de batom" saindo pelos portões em prantos, carregando sua rescisão.

​— Ninguém faz como eu — ela resmungava, enquanto polia as bandejas de inox até que brilhassem como espelhos. — Elas são descartáveis. Eu sou o hospital.

​O Último Turno

​A morte foi irônica. Zulmira teve um infarto fulminante em plena madrugada, abraçada a uma garrafa térmica de dois litros que se recusava a soltar. Quando encontraram seu corpo, os dedos estavam rígidos, como garras presas à alça plástica.

​No funeral, poucas flores e muitos suspiros de alívio disfarçados de luto. As outras copeiras acharam que, finalmente, teriam paz. Mal sabiam que Zulmira era orgulhosa demais para aceitar a demissão sumária imposta por Deus. No túnel de luz, ela viu apenas um corredor de hospital mal iluminado e decidiu que não iria a lugar nenhum. Se o hospital era dela, ela seria sua eterna zeladora.

​O Fantasma da Copa

​O terror começou com pequenos detalhes. A nova copeira, uma jovem chamada Cássia, sentia o ar congelar sempre que entrava na copa, mesmo nos dias mais quentes do verão paranaense.

  • O Café Adulterado: Cássia preparava o café com precisão. Mas, ao servir os médicos, a bebida estava intragável — ora amarga como fel, ora transbordando sal.
  • As Facas Voadoras: Talheres de inox deslizavam sozinhos das bancadas, caindo perigosamente perto dos pés das novatas.
  • O Sussurro no Corredor: À noite, ouvia-se o som de tamancos de borracha batendo no piso de granilite. Um som seco, rítmico, que parava exatamente atrás de quem estivesse sozinha.

​Cássia foi a primeira a ver a "coisa". Ao limpar o espelho da copa, viu o reflexo de uma mulher de avental engomado, com olhos que eram apenas dois buracos negros de puro rancor. Zulmira não queria apenas assustar; ela queria provar incompetência.

​A Sabotagem Eterna

​Certa noite, o hospital recebeu as vítimas de um engavetamento na rodovia. O caos reinava. Cássia precisava preparar caldos urgentes para os pacientes em observação. Enquanto mexia a panela, sentiu uma mão invisível e gélida segurar seu pulso.

​A força era sobre-humana. A colher foi guiada para dentro de um pote de detergente, que Zulmira, do além, havia destampado.

​— O que você está fazendo?! — uma voz rouca e gutural soprou no ouvido de Cássia.

​A jovem tentou gritar, mas o som morreu na garganta. Ela viu a imagem de Zulmira se materializar ao lado do fogão, o rosto retorcido por uma satisfação maligna. As luzes da copa piscaram violentamente. Pratos começaram a explodir nas prateleiras, um a um, como se estivessem sendo atingidos por tiros invisíveis.

​O Veredito de Zulmira

​Cássia pediu demissão naquela mesma noite, deixando o hospital em estado de choque. O diretor tentou contratar outras, mas a fama da "Copa Maldita" se espalhou pelas cidades vizinhas.

​Hoje, a copa do Hospital de São Roque permanece fechada na maior parte do tempo. Dizem que, se você passar pelo corredor tarde da noite, ainda pode ouvir o barulho da água fervendo e o som de uma colher batendo ritmicamente contra o metal.

​Zulmira conseguiu o que queria. Ela é, enfim, insubstituível. Ocupa um espaço que ninguém mais ousa preencher, governando um reino de sombras, garrafas vazias e um rancor que nem a morte foi capaz de esfriar. No pequeno hospital do interior, a escala de serviço tem apenas um nome escrito com sangue e café: Zulmira, Eterna.


"Escrito com o coração (e revisado com atenção) por O Escritor Dislexo."

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