Ensaio sobre o luto
Sentar-se à mesa com o luto é, talvez, o único compromisso para o qual ninguém se sente pronto, mesmo sabendo que o convite chegará. Quando recebemos a notícia de que o pai de alguém querido partiu, algo em nós estremece. Não é apenas a dor pelo outro; é o eco de uma finitude que compartilha o nosso próprio DNA.
A morte, essa senhora de passos silenciosos, é a única certeza democrática que nos resta em um mundo de incertezas tecnológicas e pressas infindáveis.
O Abismo da Ausência
Perder um pai — seja o nosso ou o de um amigo — é testemunhar a queda de uma pilastra. Para quem fica, o mundo parece subitamente menos seguro. O pai é, no imaginário de quase todos nós, aquele que deveria ter as respostas, ou pelo menos o mapa da estrada. Quando ele se vai, o mapa rasga.
O luto não é uma doença da qual se cura; é um amor que não tem mais para onde ir. Ele se transforma em saudade, essa palavra que só o nosso português sabe lapidar com tanta precisão. A saudade é o rastro deixado por quem passou; é a prova viva de que o afeto aconteceu.
As Estações da Alma
É preciso entender que o luto não é uma linha reta. No Brasil de hoje, onde tudo precisa ser "postado" e "superado" na velocidade de um clique, a dor da perda soa como um erro de sistema. Mas não é.
- O Silêncio: No início, as palavras falham. E tudo bem. Às vezes, a melhor oração é o silêncio compartilhado.
- A Memória: Com o tempo, o choro dá lugar ao sorriso de canto de boca ao lembrar de um trejeito, de uma teimosia ou de um conselho repetido à exaustão.
- A Aceitação: Aceitar não é esquecer. É acomodar a ausência em um lugar da alma onde ela não machuque tanto ao respirar.
O Convite à Humanidade
Todos passaremos por isso. Essa é a verdade nua que tentamos esconder sob camadas de distrações. Mas veja: saber que a vida é finita é justamente o que a torna preciosa. Se fôssemos eternos, deixaríamos tudo para amanhã.
Como a morte é certa, o café de hoje com quem amamos ganha um peso sagrado. O "eu te amo" enviado por mensagem torna-se um amuleto.
"A morte não é o contrário da vida. A vida não tem contrário. O contrário da morte é o nascimento. A vida é o fio que une os dois, e esse fio é feito de memória."
Se você conhece alguém que acabou de perder o pai, não tente dar explicações lógicas. A lógica é fria, e o luto pede calor. Apenas esteja lá. Ofereça o ombro, o ouvido ou o silêncio.
Afinal, estamos todos caminhando uns aos outros de volta para casa. O luto é apenas o preço que pagamos por termos tido a coragem de amar alguém profundamente. E, acredite, esse preço ainda vale a pena.
Por Alex Sandro Alves - O Escritor Dislexo
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