​A Vida é muito mais fácil quando você não paga boletos


​O Adalberto era um filósofo de boteco, mas do tipo prático. Daqueles que não citam Heidegger, mas sabem exatamente quantos milímetros de espuma separam uma decepção de uma alegria. Estávamos no "Bar do Juvenal", o último reduto de resistência contra a gourmetização do amendoim, quando ele soltou a pérola, entre um gole e outro de uma loira gelada:

​— Sabe, a vida é muito mais fácil quando você não paga boletos.

​Olhei para ele por cima dos óculos. O Adalberto não era herdeiro, não tinha ganho na Mega-Sena e, até onde eu sabia, ainda habitava este plano físico sujeito às leis do Código Civil.

​— Magnífico, Adalberto. E como você sugere que a gente lide com a operadora de internet, energia elétrica e água? No sinal de fumaça? Ou voltamos ao escambo, trocando dois quilos de alcatra por uma hora de Netflix?

​Ele nem piscou.

​— Você não entendeu a metafísica da coisa. O problema não é o dinheiro. É o boleto. O boleto é um documento autoritário. Ele tem data, tem hora, tem código de barras e, acima de tudo, tem aquela linha pontilhada que parece uma guilhotina esperando o seu pescoço. O boleto é a prova material de que você não é dono do seu tempo.

​— E você é dono do seu? — perguntei.

​— Sou. Porque eu decidi ignorar a existência deles. Eu entrei no estado de "Anestesia Financeira".

​Segundo o Adalberto, o segredo da felicidade não era a riqueza, mas a desconexão. Ele me explicou que passara a semana inteira sem abrir o aplicativo do banco e sem olhar a caixa de correio. Ele descreveu esses dias como uma "viagem ao Éden antes da serpente inventar o juros sobre juros".

​— Durante cinco dias — disse ele, entusiasmado — eu fui um homem livre. Comi pão na chapa sem pensar no trigo importado. Tomei banho quente sem calcular o Kw/h. O mundo lá fora estava em colapso, a inflação subia, o governo mudava, e eu... eu era um passarinho. Um passarinho sem CPF vinculado a dívidas ativas.

​— E o que aconteceu no sexto dia? — indaguei, já prevendo a tragédia.

​Adalberto suspirou, o brilho nos olhos murchando como um suflê que saiu do forno antes da hora.

​— O banco me ligou. Um tal de Vanderlei, com aquela voz de quem comeu um dicionário de gerúndios no café da manhã. Ele queria "estar informando" que o meu "limite de crédito estaria sendo revisto". Foi aí que a realidade bateu na porta. O paraíso acabou porque o Vanderlei não aceita poesia como forma de pagamento.

​A conclusão do Adalberto era melancólica, mas precisa. A vida sem boletos é a única vida que vale a pena ser vivida, mas infelizmente ela só dura até o vencimento. Saímos do bar em silêncio. No caminho para casa, vi um papel dobrado sob a minha porta. Era branco, com uma tarja amarela e aquele código de barras que parece uma grade de prisão.

​Peguei o papel. Olhei para ele. Pensei no Adalberto. E, por um breve, glorioso e irresponsável segundo, cogitei ser um passarinho.

​Mas aí lembrei que passarinhos não têm ar-condicionado. E suspirei, abrindo o aplicativo do banco.

Fim

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