Os Momentos Impróprios para uma cidade ser Conhecida
É uma verdade irónica: a cidade onde morto e trabalho possui tudo o que uma capital regional exige para ser respeitada. Temos fórum, faculdades com cursos diversos, até de direto e medicina, sede de regional de saúde e até uma regional de educação. Como bônus até um réplica da famosa Torre Eiffel de Paris!
No papel, somos um colosso administrativo no coração do Paraná. Na prática, porém, figurar no mapa da previsão do tempo da TV e na internet parece um objetivo mais inalcançável do que a paz mundial. O meteorologista aponta para Londrina, desliza para Guarapuava, salta sobre nós como quem pula uma poça e aterrissa em Maringá. Para a grande mídia, está cidade no centro do estado é uma espécie de Triângulo das Bermudas de terra roxa.
O isolamento é geográfico e, ironicamente, estrutural. Enquanto outras comarcas ostentam o ronco de turbinas, nossa ausência de aeroporto e rodoferroviária, industrialização ou pontos turísticos garante que quem chega aqui o faz com propósito — ou por um erro de programação ou vírus no GPS. Esse distanciamento paulatino do resto do estado criou um vácuo de identidade que a realidade insiste em preencher de forma... criativa.
O problema são os nossos "quinze minutos de fama". São sempre momentos prosaicos que escalam para o surrealismo jurídico. Quando o paranaense médio finalmente ouve o nome da cidade, não é por causa do nosso atendimento primoroso na saúde ou do destaque acadêmico. É porque, em algum início de dia ensolarado ou nem tanto, um galo decidiu exercer seu direito constitucional de cantar na madrugada e acabou recebendo voz de prisão.
Sim, o mundo soube que existimos porque um galo foi detido. É um evento que nos obriga a evitar o riso enquanto tentamos manter a pose de polo regional. É difícil elaborar um discurso de metrópole do interior quando a notícia de capa envolve aves detentas ou acontecimentos tão inusitados que fariam um roteirista de realismo fantástico pedir demissão por falta de criatividade.
A elite local pode planejar nos bastidores do poder sobre o desenvolvimento econômico, mas o olhar do vizinho de fora continua sendo preconceito e desconfiado: "Essa cidade, qual nome mesmo? É lá que prendem os bichos?".
Talvez o Dr. Aristides do conto do duelo de Curitiba, aquele alfaiate de espírito que não existe tantos heróis hecem dia (ou talvez o próprio farmacêutico da esquina), tenha um plano bem elaborado para nos colocar no mapa por motivos nobres. Alguém com olhar genial e quase sobrenatural que perceba que, para ser levado a sério, o tecido da nossa reputação precisa estar mais na moda e e menos sujeito a essas fofocas de quintal.
Até lá, seguimos sendo a cidade que tem tudo, mas que só aparece no jornal se o inusitado decidir dar as caras. É irônico, quase proposital da parte do destino: semos um centro de referência regional, mas o mundo só nos nota quando a lógica decide tirar um dia de folga.
Quando seremos um polo levado a sério? Talvez no dia em que o mapa do tempo finalmente mostrar uma nuvem sobre nós — e que essa nuvem não tenha o formato de um galo de calça jeans.
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