O Relógio de Areia de Vidro e Papel - a triste realidade dos que vivem e os que só existem para pagar boletos.

A triste realidade dos que vivem e os que só existem para pagar boletos.

Por Alex Sandro Alves, em especial para o Blog O Escritor Dislexo

​Em uma cidade cinzenta, onde o sol parecia brilhar com menos força do que o neon das farmácias, viviam dois vizinhos: o Sr. Existêncio e o Sr. Vivente.

​O Sr. Existêncio era um homem de passos rápidos e olhos grudados no calendário. Ele possuía uma coleção invejável de pastas coloridas, cada uma rotulada com o rigor de um cartório: "Luz", "Internet", "Parcela do Carro", "Condomínio". A vida de Existêncio era uma coreografia de malabarismo financeiro. Para garantir o almoço de hoje, ele antecipava o cartão de amanhã; vendia a janta para sustentar a ilusão de um banquete que nunca chegava à mesa.

​Certa noite, exausto após conferir o extrato bancário pela décima vez, Existêncio cruzou com Vivente no corredor. Vivente carregava um violão e cheirava a vento fresco, embora vestisse roupas simples e sapatos gastos.

​— Como você consegue essa calma? — perguntou Existêncio, com o cenho franzido. — O boleto do IPVA vence amanhã, o reajuste do aluguel chegou e o mercado está pela hora da morte. Eu mal durmo pensando em como fechar a conta.

​Vivente sorriu, um sorriso que parecia não ter pressa.

— Meu caro, a diferença é que você transformou sua vida em uma planilha de Excel, enquanto eu tento mantê-la como uma canção. Eu também pago boletos, mas eu não permito que eles sejam os donos da minha biografia.

​— Mas é impossível não se preocupar! — protestou Existêncio. — Se eu não correr, a conta me atropela.

​— E se você só correr, o que sobrará de você quando a estrada acabar? — rebateu Vivente suavemente. — Você está vendendo seus melhores anos para comprar coisas que só servem para mostrar aos outros que você "está bem". Enquanto você se mata para pagar a parcela do carro que te leva ao trabalho para pagar o carro, eu caminho pelo parque e vejo o pôr do sol, que ainda é de graça.

​Naquela noite, Existêncio sonhou que era um relógio de areia, mas em vez de grãos finos, o que escorria para a parte de baixo eram boletos bancários. Quanto mais ele pagava, mais a parte de cima — o seu tempo — se esvaziava.

​Ao acordar, ele percebeu a dura realidade da classe média brasileira: a busca incessante por um status que consome a alma e o tempo. Ele entendeu que a dignidade não mora no valor da fatura paga, mas na capacidade de respirar fundo sem sentir o peso de um código de barras no peito.

​Lição de Moral

Viver não é o mesmo que sobreviver. Quem gasta todo o seu tempo arquitetando como pagar a existência, acaba esquecendo-se de existir. O equilíbrio moderno exige que saibamos distinguir o que é necessidade do que é vaidade, pois o boleto mais caro que pagamos é aquele que nos custa a vida que deixamos de viver.

Pense nisso e até a próxima postagem.

Força, Foco e Fé 

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