13 de março de 2026, apenas uma sexta-feira qualquer?


O calendário marca 13 de março de 2026. Em Matinhos, o mar do litoral paranaense não está para peixe. O céu tem a cor de chumbo velho e a maresia parece carregar um cheiro de algo que apodreceu no fundo do oceano há décadas.

Renato estava sentado na areia, o brilho azulado do smartphone iluminando seu rosto cansado. Ele buscava likes, postando fotos com filtros que escondiam a decadência dos prédios antigos da orla. O algoritmo prometia relevância, mas o que ele sentiu foi um calafrio que nenhuma inteligência artificial conseguiria processar.

Ao longe, vindo da Ilha do Mel, uma névoa densa e amarela começou a rastejar sobre as águas, como se o próprio mar estivesse exalando um suspiro doente.

O Som do Passado

De repente, o sinal de 5G oscilou e morreu. O silêncio da praia foi interrompido por um som metálico e rítmico. Clac. Clac. Clac.

Não era um som digital. Era o som de engrenagens de ferro, de correntes enferrujadas sendo arrastadas por mãos que não possuíam mais digitais. Das sombras da Caiobá de antigamente, figuras começaram a emergir. Não eram fantasmas etéreos, mas seres sólidos, vestindo roupas de oleado dos anos 80, com rostos que pareciam cera derretida pelo sol e pelo salitre.

Eram os "Esquecidos". Pescadores e veranistas que desapareceram nas ressacas de 1983, cujas histórias foram enterradas por editais e novos empreendimentos imobiliários.

O Flash que não Ilumina

Renato tentou filmar. "Isso vai viralizar", pensou, com o polegar tremendo sobre a tela. Mas a câmera do celular mostrava apenas estática. Na tela, o rosto de Renato começou a envelhecer em tempo real, as rugas se abrindo como fendas na areia, enquanto a bateria do aparelho drenava 10% a cada segundo.

Uma das figuras se aproximou. Ela não tinha olhos, apenas dois buracos cheios de areia negra. Em sua mão, carregava uma câmera analógica antiga, daquelas que exigiam filme e paciência.
— A memória de vocês é curta — a voz da criatura soou como o ranger de um casco de navio partindo-se ao meio. — Vocês vivem no agora, no brilho da tela. Mas nós somos o que fica quando a luz acaba.

Além da Imaginação

Renato tentou correr, mas a areia sob seus pés tornou-se líquida, uma lama movediça que o puxava para o centro da terra. Ao seu redor, as redes sociais tornaram-se inúteis. O Wi-Fi das pousadas próximas começou a transmitir apenas gritos em código Morse.

O homem da câmera antiga posicionou a lente. O flash disparou — uma luz branca, violenta, química.

Quando a névoa se dissipou na manhã de sábado, dia 14, a praia estava deserta. O smartphone de Renato foi encontrado jogado perto do calçadão, com a tela estilhaçada. No entanto, em uma caixa de sapatos esquecida no sótão de uma casa antiga em Guaratuba, uma nova fotografia apareceu misteriosamente.

Nela, um homem jovem, com roupas de 2026, gritava em silêncio dentro de um quadrado de papel envelhecido, condenado a ser uma lembrança que ninguém mais teria tempo de acessar.
O mar do Paraná guarda segredos que o Wi-Fi não alcança.

Fim

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