Porque Homens e Mulheres Não Podem Ser "Só Amigos"


Porque Homens e Mulheres Não Podem Ser "Só Amigos"

Por seu colunista de relações e assuntos aleatórios Alex Sandro Alves 

Queridos leitores, sentem-se, peguem no café (ou outra bebida, se o dia pedir se se sentir seguro), porque hoje vamos tocar numa ferida que todos nós, em algum momento, já cutucámos: a lendária e, na minha humilde opinião, fictícia amizade entre um homem e uma mulher heterossexuais.

Ah, a amizade! Aquele porto seguro, aquele oásis de cumplicidade. Funciona lindamente entre dois homens, entre duas mulheres... mas quando misturamos os géneros, a coisa complica. É como tentar ser amigo de um pedaço de bacon quentinho e estaladiço quando se está faminto. Pode até tentar admirá-lo(a) à distância, falar sobre o tempo, mas a verdade é uma só: a sua biologia está a gritar para o devorar.

O Perigoso Jogo da "Amizade Colorida"

Vamos ser honestos. Quantas "amizades" não começaram com aquela faísca, aquele "e se..."? 

Pense na Maria Eduarda e no Enzo Henrique. Melhores amigos desde a faculdade. Ele ouvia os desabafos dela sobre os seus namorados idiotas; ela ajudava-o a escolher a camisa para o primeiro encontro e o que dizer ou não dizer no primeiro encontro. 

Um dia, depois de umas cervejas a mais e de mais uma desilusão amorosa, acontece. Um beijo. Depois outro. "É só físico", dizem eles. "A nossa amizade é mais forte".E aqui, caros leitores, a bomba-relógio é ativada. O que era simples torna-se um campo minado de expectativas não ditas. 

Ele vê-a a rir de uma piada de outro homem e sente uma pontada. Não é ciúme de amigo, é outra coisa. 

Ela percebe que ele passou o fim de semana com outra pessoa e o seu "bom dia" na segunda-feira soa mais frio. 

A leveza desaparece, substituída por uma tensão que se pode cortar à faca. A amizade, aquela que era pura, foi contaminada pela complexidade do desejo.

A Novela da Vida Real: O Caso de Mariana e Tiago

Conheço uma história que parece saída de um enredo de novela. Mariana e Tiago eram inseparáveis, o tipo de amigos que partilhavam segredos que nem aos seus parceiros contavam. Quando Mariana terminou um noivado de cinco anos, foi no ombro de Tiago que chorou. Numa noite de vulnerabilidade, a amizade transformou-se em paixão. Parecia um conto de fadas. "Finalmente!", diziam os amigos em comum.

Mas o conto de fadas azedou. Tiago, o amigo perfeito, tornou-se um namorado ciumento. Ele não suportava a ideia de ela ter amigos homens, porque, no fundo, ele sabia exatamente como essa "amizade" podia começar. Mariana, por sua vez, sentia falta do seu confidente. "Eu não posso desabafar sobre o meu namorado... com o meu namorado!", confessou-me ela um dia. 

A magia do amigo que tudo ouvia desapareceu, e no seu lugar ficou um casal que se ressentia um do outro. O término não só foi doloroso, como aniquilou uma década de amizade. Hoje, eles nem se cumprimentam na rua. O porto seguro virou ruínas.

A Biologia Contra a Lógica

Podemos ser criaturas racionais, mas não nos enganemos: somos governados por uma química invisível e poderosa. Antropologicamente, fomos programados para procurar um parceiro, para procriar. 

Um homem, por mais evoluído que seja, está biologicamente sintonizado para notar o sorriso, o cheiro, a curva do pescoço da sua "amiga". 

Uma mulher, por mais independente que seja, está psicologicamente atenta aos sinais de proteção, de interesse, de ser a "escolhida" pelo seu "amigo".

A Tragédia Silenciosa de Carla e Bruno

Pensemos em Carla e Bruno. Melhores amigos de trabalho. Almoçavam juntos todos os dias. Ele era o seu maior incentivador; ela, a sua melhor conselheira. Bruno era casado, e Carla tinha um namorado. 

Uma amizade "segura", certo? Errado. A admiração mútua e a cumplicidade diária criaram um laço emocional tão forte que ultrapassou os seus respetivos relacionamentos.Nunca houve um beijo, nunca houve um caso físico. Foi uma traição silenciosa, emocional.

Começaram a esconder as conversas dos parceiros, a partilhar vitórias primeiro um com o outro. A esposa de Bruno sentia-o cada vez mais distante, e o namorado de Carla queixava-se de que ela "só falava no Bruno". 

A tensão tornou-se insustentável. Para salvar os seus relacionamentos, eles tiveram que tomar uma decisão drástica: cortar a amizade. Foi um luto. Perderam o melhor amigo para tentar salvar um amor que já estava ferido pela sombra daquela "amizade".

O Fim Inevitável

O resultado? Quase sempre um de três cenários, todos eles perigosos para a amizade original:

1.A Explosão: Um dos dois não aguenta mais e declara-se, como aconteceu com Mariana e Tiago, arriscando tudo e perdendo em dobro.

2.O Relacionamento: Eles tentam namorar e descobrem que o amigo ideal não é o parceiro ideal. E quando terminam? A amizade não volta.

3.O Afastamento Lento: A tensão torna-se tão grande que ambos, como Carla e Bruno, são forçados a afastar-se, deixando um vazio que nenhuma outra amizade preenche.

No final do dia, a amizade entre homem e mulher é um ideal romântico, uma bela mentira que contamos a nós mesmos. Porque quando a cumplicidade é tão profunda e a atração está à espreita, a linha entre o querer bem e o querer para si torna-se ténue demais para não ser cruzada. E, tal como o guloso com o bacon, a tentação, meus caros, quase sempre fala mais alto.

Até breve 

Alex Sandro Alves 

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