Sob os cornos da lua


A noite no interior tem um silêncio que escuta a gente. Longe das luzes da cidade, o céu não é só um teto; é um espelho antigo. Meu avô gostava de sentar na varanda, apontar para o céu quando a Lua surgia fina como um risco de unha e dizer: "Olha lá, menino. Estamos sob os cornos da lua."

​Para o pessoal das antigas, quando a Lua Crescente desponta enviesada, feito um par de chifres apontando para o nada, o tempo fica esquisito. É sinal de virada de tempo, de vento virado, de que a terra tá pronta para pregar uma peça em quem não presta atenção no chão.

​Pensava nisso outro dia, olhando a tela do celular piscar sem parar. A sensação é de que o mundo inteiro resolveu morar de vez sob esses cornos.

​Nunca fomos tão reféns do exagero. A impressão é de que a moderação virou artigo de luxo, item fora de linha. Queremos a perfeição agora, e para ontem. Se alguém propõe uma ideia, ela não pode ser só razoável; precisa ser uma utopia grandiosa que vai salvar a humanidade ou o fim dos tempos que vai destruir a todos até a próxima segunda-feira. Não há mais meio-termo, não há mais o café coado devagar na mesa da cozinha. Tudo virou espetáculo, cobrança e urgência.

​O perigo dessas ideias tão reluzentes e distantes é que elas esquecem a realidade aqui de baixo. A gente se apaixona por discursos bonitos no papel e aceita, pelo caminho, justificativas absurdas para ações que só espalham amargura, divisão e rancor. É o exagero da boa intenção que atropela a vida comum; a utopia que, para tentar desenhar o céu, acaba ateando fogo na terra.

​Enquanto isso, a vida de verdade — aquela que acontece entre o prato de almoço e o boa-noite para a família — vai ficando sufocada sob o peso dessa barulhada toda. Ficamos todos ansiosos, apontando o dedo, certos de que temos a razão do nosso lado e de que o vizinho é o vilão da história.

​Meu avô não conheceu a internet, mas entendia de gente. Quando a Lua aparecia pontuda daquele jeito, ele não tentava discutir com o céu. Ele apenas checava as trancas do curral, trazia os bichos para perto, fechava as janelas para o vento frio não entrar e acendia o fogão a lenha.

​Talvez o que nos falte hoje seja um pouco dessa sabedoria roceira. Diante do exagero dos tempos e dos discursos inflados, o melhor remédio ainda é pisar firme no chão, desconfiar das promessas mirabolantes e cuidar bem daquilo que está ao alcance das nossas mãos. Deixar que as utopias briguem no céu, enquanto a gente cultiva a lucidez na terra.

Fim

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