O relógio de ouro no pulso de Arthur

Somos julgados pelos que os outros acham de nós.

Alex Sandro Alves para o Blog O Escritor Dislexo.


O relógio de ouro no pulso de Arthur não era dele, mas brilhava como se fosse. Ele vestia um terno de corte impecável, embora as costuras internas estivessem puídas. Naquela manhã, Arthur entrou no suntuoso saguão da Investimentos & Legado com o queixo erguido e um sorriso que sugeria que ele possuía metade da cidade.

Ele era, na verdade, um homem de origem humilde, filho de uma lavadeira e de um marceneiro, que passara dez anos estudando cada detalhe do mercado financeiro em livros usados. Sabia mais sobre projeções de risco do que qualquer herdeiro ali presente.

O Carimbo da Primeira Impressão

Ao entrar na sala de reuniões para a vaga de Diretor de Estratégia, Arthur foi recebido por Dr. Valadares, um homem cuja linhagem remontava aos barões do café. Nos primeiros cinco minutos, Arthur foi brilhante. Sua eloquência, o aperto de mão firme e a segurança ao falar de ativos internacionais deixaram uma marca profunda.

— "Um jovem de berço", pensou Valadares. "Dá para ver pelo porte. Sangue azul reconhece sangue azul."
O estereótipo foi carimbado: Arthur era o "Garoto de Ouro".

A Queda da Máscara (ou a Revelação da Verdade)

Meses se passaram. Arthur era, de fato, o funcionário mais competente da firma. Ele salvou contas milionárias e previu a queda de commodities antes de qualquer algoritmo. Ele era ético, bondoso com os subordinados e incansável.

Contudo, a verdade tem pernas curtas em cidades pequenas. Em um jantar de gala, um antigo vizinho de Arthur, agora garçom no evento, saudou-o com familiaridade:
— "Arthurzinho! Que orgulho ver o filho da Dona Maria aqui. Lembra quando a gente dividia o marmitex na calçada?"
O silêncio na mesa de Dr. Valadares foi ensurdecedor. O terno de Arthur não mudou de cor, sua inteligência não evaporou, e sua bondade continuava ali. Mas, para os olhos dos presentes, o "Garoto de Ouro" havia se transformado instantaneamente no "Impostor da Periferia".

O Julgamento Estático

Arthur continuou entregando resultados impecáveis. Ele era digno de todos os elogios técnicos, mas o ar na empresa mudou.

 * Se ele chegava cedo, não era mais por "dedicação", era por "medo de perder o que conquistou".
 * Se ele dava uma ideia brilhante, não era "genialidade", era "astúcia de quem sabe malandrar".
 * Se ele era gentil, era "puxa-saquismo".

O estereótipo de "alguém que não pertence ao topo" foi sobreposto à sua competência. Não importava que ele fosse o melhor estrategista que a empresa já vira; aos olhos dos outros, ele era apenas alguém ocupando um lugar que não era seu por direito de nascença.

O Epílogo da Realidade

Anos depois, Arthur pediu demissão. Ele percebeu que, naquela estrutura, ele nunca seria avaliado pelo que era ou pelo que fazia. Ele era refém do que achavam dele. A primeira impressão de "nobreza" foi trocada pela "fraude social", e essa segunda impressão tornou-se o seu novo carimbo permanente.

Ele saiu da empresa com a mesma dignidade com que entrou, mas com uma lição amarga: o mundo prefere uma mentira elegante a uma verdade que desafie seus preconceitos. Somos, para o olhar alheio, a primeira moldura que nos colocam. E, por mais que pintemos o quadro com cores de competência e virtude, a maioria das pessoas só consegue ver a moldura.

"Não somos medidos pelo que realmente somos, mas pela fresta dos olhos que os outros escolhem abrir para nos olhar e julgar."

FIM 

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