Tem noites em que a gente senta na varanda, olha o silêncio da rua e pensa: “Pronto, finalmente a vida engrenou”.
As contas estão pagas, o coração sossegou, a casa está em ordem e o café acabou de passar. Nesses raros momentos de respiro, a sensação é de que chegamos a um porto seguro onde nada nem ninguém poderá nos tocar.
Aí, no dia seguinte, o pneu do carro fura. Ou vem uma notícia que assusta. Ou simplesmente uma mensagem no celular muda o rumo do nosso humor antes do almoço.
É exatamente aí que bate aquele estalo por dentro: agora eu sei que a paz nunca dura.
Uma frase amarga ou um abraço na realidade?
À primeira vista, essa constatação parece um balde de água fria no nosso otimismo. Soa quase como se a vida estivesse dizendo que não adianta tentar ser feliz. Mas, quando a gente amadurece e para de brigar com as coisas como elas são, percebe que isso não é um castigo — é só o ritmo do mundo.
Pense no tempo. Ninguém espera que o sol das duas da tarde fique estacionado no céu para sempre. A gente sabe que a chuva vem, que a noite chega, que a temperatura cai e que, depois de tudo isso, o sol volta a nascer.
Com a nossa paz interior, o processo é o mesmo. A paz não é uma estátua de pedra que fica imóvel no mesmo lugar; ela é mais parecida com o mar. Tem dias de calmaria em que dá para ver o fundo com clareza, e tem dias de ressaca em que as ondas viram tudo do avesso.
O que muda quando a gente aceita a impermanência?
Entender que a paz é passageira não nos torna pessimistas. Na verdade, transforma a forma como caminhamos:
- A gente aprende a degustar o presente: Sabendo que a calmaria não dura para sempre, aquele café tomado sem pressa num domingo de manhã ganha gosto de banquete. O abraço sincero vira patrimônio. A gente para de adiar o bem-estar para um "futuro perfeito" que nunca chega e aproveita a trégua que a vida está dando agora.
- O baque da tempestade fica menor: Quando o problema aparece — e ele sempre aparece —, a gente não se desespera achando que o mundo acabou. Em vez do susto do "por que comigo?", a gente respira e pensa: "Tudo bem, a maré mudou. Hora de ajustar as velas e atravessar isso aqui".
- A gente se liberta da obrigação de estar bem o tempo todo: A cobrança por uma felicidade ininterrompida é exaustiva. Aceitar que a paz vem e vai nos dá o direito de sentir cansaço, tristeza ou preocupação sem achar que falhamos na vida.
A visitante querida
Descobrir que a paz nunca dura não significa viver com medo do amanhã. Pelo contrário: significa parar de esperar por uma vida sem problemas para finalmente começar a viver.
A paz é uma visitante querida, não uma moradora fixa. Quando ela bater à sua porta, abra com um sorriso, sirva a melhor xícara de chá, aproveite a boa companhia e, quando ela precisar ir embora, despeça-se em paz — sabendo que, mais cedo ou mais tarde, ela acaba voltando.
Fim
Por Alex Sandro Alves
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