No fundo do balde de plástico trincado, o ar era denso, impregnado pelo aroma azedo e quente do tempo que passa rápido demais. Ali vivia uma comunidade vibrante de maçãs.
Nos primeiros dias, a convivência parecia perfeita. Havia as maçãs vermelhas de casca fina, sempre cheias de vida, e as verdes, que compensavam o rigor com um viço invejável. Entre elas, porém, descansava uma maçã ligeiramente diferente. Sua pele tinha um brilho reflexivo, quase vítreo, fruto de uma fina e imperceptível camada de parafina aplicada ainda no pomar. Ela era tranquila, reservada e, sem que percebesse, completamente impermeável ao mundo exterior.
O tempo, contudo, não perdoa a matéria orgânica.
Na segunda semana, uma pequena mancha castanha surgiu na maçã do canto direito. Era o início da ruína. Pouco a pouco, a ferrugem da decomposição espalhou-se de casca em casca. O suco doce deu lugar à fermentação; a firmeza da polpa transformou-se em uma pasta escura e disforme. A colônia inteira afundava, ombro a ombro, na mesma tragédia inevitável.
Todas, exceto a maçã parafinada.
Ela permanecia intacta. Tão firme quanto no primeiro dia, refletia a pouca luz que entrava no balde com uma elegância inabalável. Mas o que deveria ser admiração logo se transformou em rancor.
Da lama escura em que haviam se tornado, as maçãs apodrecidas passaram a sussurrar.
— Olhem para ela — murmurava a maçã verde, cuja polpa agora mal se sustentava. — Acha-se melhor do que nós. Não compartilha das nossas dores.
— É uma falsa! — esbravejava outra, já tomada pelo mofo esbranquiçado. — Como pode estar assim, tão limpa, enquanto nós nos desfazemos? Ela nos nega a sua própria essência. É egoísta! Não é de confiança!
Para a maioria que se esvaziava em decadência, a integridade da maçã parafinada era vista como uma afronta, uma traição velada. Afinal, a moral do balde havia mudado: para elas, a verdadeira lealdade exigia o apodrecimento coletivo. O dogma que agora reinava na penumbra era claro: "Companheiros de verdade agarram as mãos e não largam. Se afundamos, afundamos juntos."
A maçã parafinada tentava explicar que não havia escolhido sua blindagem, que a parafina apenas a protegia de se contaminar com o ar que consumia as outras. Mas para quem já virou vinagre, a autoconservação do outro soa como soberba. Aos olhos da maioria, manter-se são em um ambiente doente era a maior das vilanias.
Trancada em sua integridade, ela virou o inimigo comum. Diziam que seu brilho era artificial, que seu silêncio era veneno e que sua recusa em apodrecer provava que ela nunca fora uma delas. Era preferível o abraço coletivo da lixeira à solidão distinta da mesa de jantar.
No final da terceira semana, a mão do camponês finalmente alcançou o fundo do balde.
Com desdém, ele despejou todo o conteúdo murcho, viscoso e escuro diretamente na lata de lixo. Mas, ao tocar a maçã parafinada, sentiu sua firmeza. Limpou-a na manga da camisa, admirou seu brilho intocado e a colocou com cuidado no centro da fruteira de cristal da sala de estar.
Lá do fundo do saco de lixo, enquanto afundavam na escuridão definitiva, as maçãs podres ainda sussurravam em coro, consolando-se no próprio infortúnio:
— Pelo menos fomos leais... Ela foi para a mesa, mas foi sozinha.
FIM
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