A fumaça densa do fumo de baunilha e cereja pairava sob a luz baixa do candelabro. Na mesa de feltro verde, o som ritmado de fichas deslizando e caindo umas sobre as outras era acompanhado pelo tilintar ritmado de pedras de gelo contra o vidro cristalino. Era a última sexta-feira do mês.
— Três cartas para o doutor, duas para o desembargador e eu fico com uma — disse Arthur, distribuindo o baralho com a precisão de quem fazia aquilo há vinte anos. Ele deu um longo tacho no seu cachimbo de nogueira e soltou uma espiral azulada. — Sirvam-se, senhores. A garrafa de Cîroc recém-saída do congelador está à esquerda.
— Com duas pedras de gelo, por favor, Arthur — pediu Roberto, ajustando os óculos e olhando para suas cartas. — Depois da semana que eu tive no tribunal, esse copo é a única coisa mantendo minha sanidade.
Guto, o mais jovem do grupo, pegou a garrafa prateada, serviu o destilado cristalino sobre o gelo translúcido e entregou o copo a Roberto. O estalo do gelo trincando com a bebida fria ecoou na sala silenciosa.
— Aqui não tem tribunal. Nem esposa, nem cobrança de diretoria, nem politicamente correto — lembrou Guto, dando uma tragada profunda no próprio cachimbo. — Esse é o templo sagrado da Confraria do Cîroc. O que se fala nesta sala, morre junto com as cinzas deste fumo.
— Falando nisso... — Roberto encostou as costas na poltrona de couro escuro, girando o copo na mão. — Aumentem a aposta. Vou confessar uma coisa que me custaria o cargo se saísse daqui. Aquele projeto de urbanização da zona sul? Complete absurdidade jurídica. Eu aprovei puramente por birra com o secretário.
Arthur deu uma risada grave, balançando a cabeça antes de jogar duas fichas azuis no centro da mesa.
— Pelo menos o seu pecado é burocrático, Roberto. Eu vendi minha participação na startup semana passada por dez vezes o valor real, sabendo que o algoritmo principal deles vai caducar em seis meses. Se me pegarem, dizem que foi falta de visão. Se não pegarem, troco de iate no fim do ano.
— Vocês são dois canalhas adoráveis — riu Guto, soltando uma fumaça densa e aromática. — Eu pago pra ver, Arthur. E subo mais cinco fichas.
— A propósito — disse Roberto, pegando o copo e dando um gole lento, saboreando a suavidade gelada da Cîroc. — E aquela história da viagem a Paris, Guto? A sua esposa ainda acha que você foi para uma conferência de arquitetura?
— Paris? Ah, meu amigo... — Guto sorriu de canto, olhando para o teto enquanto a fumaça subia. — O único monumento que eu visitei lá tinha um metro e oitenta, olhos verdes e não falava uma palavra de português. A conferência durou quatro dias de puro luxo no George V. E quer saber? Não me arrependo de um único centavo.
— Viva à hipocrisia das aparências e à liberdade da última sexta-feira! — brincou Arthur, levantando seu copo de Cîroc com gelo no ar.
Os três homens chocaram os copos pesados de cristal. Um som límpido ressoou pela sala.
— À Confraria — disseram em coro.
— Agora, voltemos ao que interessa — disse Roberto, bateu com o nó dos dedos no feltro verde e encarou os amigos. — Eu abro com vinte fichas. Mostrem o que vocês têm, ou deixem o pote para quem realmente sabe jogar.
Por Alex Sandro
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