Há muitas gerações, a Clareira Verde era o orgulho do bosque. Todos os animais herbívoros — coelhos, capivaras, javalis, cervos e tartarugas — mantinham ali uma grandiosa horta comunitária. O sistema era impecável: cada espécie tinha sua tarefa diária, desde o plantio das sementes até a irrigação no início da manhã, o controle manual de pragas agrícolas e a justa partilha dos frutos. Havia cenouras crocantes, alfaces macias, batatas-doces e raminhos de cheiro-verde para todos. Ninguém passava fome e o trabalho compartilhado era leve.
No entanto, em um dia especialmente quente e ensolarado, o cansaço falou mais alto. Olhando para a terra seca e para as pás de madeira, a capivara suspirou, o coelho reclamou do sol nas costas e o cervo lamentou a falta de tempo para descansar à sombra das tamareiras. Foi então que surgiu a ideia fatal: terceirizar o trabalho.
Para simplificar as coisas, organizaram uma eleição. O escolhido para administrar o local foi o Cabrito. Com seu ar altivo, barba imponente e discurso articulado, ele prometeu assumir todas as decisões difíceis, delegar funções com eficiência e garantir que a colheita continuasse fartíssima sem que ninguém precisasse se desgastar tanto. A proposta parecia perfeita, e o Cabrito foi eleito por unanimidade.
Nos primeiros dias, o conforto pareceu triunfar. Os animais descansavam enquanto o Cabrito passeava entre os canteiros com uma prancheta de casca de árvore. Contudo, não demorou para que o abuso de poder subisse à cabeça do novo gestor.
Acostumado a uma ganância insaciável e fascinado pela abundância ao seu dispor, o Cabrito passou a consumir muito mais do que necessitava. Nas noites silenciosas, ele invadia os canteiros e devorava as melhores brotações, os brotos mais tenros de alface e as raízes mais suculentas.
Aos poucos, a fartura começou a desvanecer. Plantas medicinais raras desapareceram, os canteiros de cenoura ficaram desolados e a cota mensal distribuída aos animais tornou-se cada vez menor. Sempre que a comunidade se reunia para reclamar da escassez, o Cabrito tinha uma desculpa pronta e solene:
— Meus caros, a culpa é da seca devastadora! — dizia ele em um mês.
— O problema é o sol fraco do inverno, que não faz a planta vingar! — justificava no outro.
— Enfrentamos um excesso imprevisível de chuva que apodreceu as raízes! — inventava no mês seguinte.
A comunidade, ingênua, aceitava as justificativas e lamentava o "mau tempo".
O disfarce caiu em uma noite de lua cheia. A Tartaruga, que caminhava devagar para beber água no riacho, ouviu mastigadas ruidosas vindo do centro da horta. Ao se aproximar sorrateiramente entre os arbustos, flagrou o Cabrito empanturrado, de barriga estufada, mastigando o último pé de alface-romana enquanto pisoteava as mudas de rabanete que restavam.
Na manhã seguinte, a Tartaruga convocou todos os moradores e revelou a fraude. Espantados, os animais marcharam até a horta e pegaram o Cabrito ainda dormindo pesado no meio dos estragos, cercado por talos roídos e raízes arrancadas. Sem argumentos diante da prova viva de seu egoísmo, o gestor foi expulso imediatamente da Clareira Verde.
Tristes com a devastação, mas amadurecidos pela lição, os animais pegaram suas enxadas de volta. Replantaram cada centímetro de solo e retomaram a escala comunitária de trabalho. A horta voltou a florescer, e a história do Cabrito passou a ser contada de geração em geração.
Moral da história: Nunca coloque o cabrito para cuidar da horta. Abrir mão de nossas próprias responsabilidades em busca de facilidade quase sempre custa caro, pois ninguém cuida do que é nosso melhor do que nós mesmos.
Por Alex Sandro
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