Eu preciso ter a pia
A luz amarela do poste da rua entrava pela janela sem cortina, desenhando um retângulo imperfeito no chão de taco solto. Foi ali, deitado sobre o colchão de solteiro direto no piso de madeira, que Lucas encarou o teto e suspirou pela terceira vez na noite.
Alugar aquele espaço no terceiro andar de um prédio antigo tinha parecido a conquista do século. Ele finalmente saíra da casa dos pais no interior para cursar a faculdade de História na capital. As chaves na mão traziam um gosto doce de liberdade, mas a realidade da kitnet nº 34 era um tanto mais espartana.
O inventário do apartamento era rápido de fazer:
- Um colchão de espuma densidade 28 (presente da mãe);
- Um mini fogão elétrico de duas bocas em cima de uma caixa de papelão;
- Uma mala aberta no canto servindo de guarda-roupa;
- Zero televisão, zero máquina de lavar, zero mesa.
Lucas não se importava de lavar as roupas à mão num balde plástico dentro do box, torcendo cada camiseta até as palmas das mãos ficarem vermelhas. Também não achava ruim a ausência do televisor; o notebook velho dava conta dos episódios de séries e das leituras de aula. Nas redes sociais, quando salvava referências de decoração, ele alimentava um sonho quase luxuoso: uma cozinha americana completa, com balcão de granito, banquetas altas de ferro e um cooktop reluzente onde prepararia jantares para os amigos da faculdade.
Mas a arquitetura cruel da kitnet guardava uma pegadinha.
O imóvel não tinha cozinha. Nem mesmo uma bancada simples ou uma cuba pequena. Toda a preparação de alimentos acontecia no espaço entre a porta do quarto e a entrada do banheiro. E era ali que residia o verdadeiro pesadelo diário de Lucas.
Lavar a louça na pia do banheiro.
Toda noite, após preparar um macarrão instantâneo ou fritar um ovo no fogão de papelão, a rotina humilhante se repetia. Lucas equilibrava o prato engordurado, o garfo e a frigideira pequena na palma da mão e caminhava até o banheiro. A pia de louça branca era tão rasa que a frigideira nem cabia deitada.
Ao tentar ensaboar o prato, a torneira baixa demais batia na louça. A espuma do detergente de maçã se misturava com os resíduos de pasta de dente no ralo. O molho de tomate escorria e manchava a louça clara. Para conseguir enxaguar a frigideira, ele precisava incliná-la em um ângulo impossível, o que invariavelmente fazia a água espirrar no espelho, na sua camisa e no chão.
— Isso é indigno — resmungava, enxugando a água da testa com a manga da blusa enquanto equilibrava o prato molhado.
Ele não queria muito. A cozinha americana podia esperar o diploma, a carreira, o futuro. Tudo o que ele canalizava em suas orações, pensamentos e planilhas financeiras se resumia a uma frase visceral: Eu preciso ter a pia.
Nas semanas seguintes, a obsessão tomou conta. Lucas começou a fazer bicos aos fins de semana: monitoria de dados na biblioteca da faculdade, digitação de trabalhos acadêmicos até as três da manhã e entregas de bicicleta. Cada nota de vinte reais economizada no almoço no bandejão universitário tinha um destino certo.
Ele passava horas nos sites de venda de móveis usados e grupos de desapego do bairro. Mapeou cada centímetro da parede ao lado da porta de entrada. Precisava de uma bancada pequena, um gabinete simples de compensado e uma cuba de inox de verdade — daquelas com profundidade suficiente para abrigar uma panela sem espirrar água na casa inteira.
No meio do segundo semestre, após um mês alimentando-se quase exclusivamente de arroz, ovos e determinação, o orçamento fechou.
Ele encontrou um gabinete usado com pia de inox integrada por um preço justo. O dono anterior estava se mudando e vendendo tudo. Para economizar o frete, Lucas convenceu dois colegas de turma a ajudá-lo a carregar o móvel por seis quadras até o prédio, subindo os três lances de escada entre risos e tropeços.
A instalação ocupou todo o seu sábado. Sem dinheiro para encanador, Lucas assistiu a dezenas de tutoriais na internet. Comprou um sifão flexível, fita veda-rosca e uma mangueira de extensão. Passou a tarde ajoelhado no chão, com a chave inglesa emprestada do síndico, suando e testando cada junção.
Por volta das sete da noite, o trabalho estava concluído.
Lucas levantou-se, limpou as mãos sujas de veda-rosca no jeans e encarou sua nova aquisição. O gabinete de madeira clara tinha duas portas levemente desalinhadas, mas a pia de inox no topo brilhava sob a luz da lâmpada forte.
Ele pegou um copo, colocou sob a torneira e girou o registro. A água correu fluida, caindo diretamente no centro da cuba funda e desaparecendo pelo ralo sem espirrar uma única gota fora.
Lucas lavou o copo ali mesmo. Sentiu o toque do inox gelado, ouviu o som ecoado da água na calha de metal e sorriu sozinho na kitnet silenciosa. Não havia balcão de granito nem banquetas elegantes, mas naquele momento, vendo a água escorrer no lugar certo, ele sentiu que tinha conquistado o mundo
Fim do conto...
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