A ilha da vigília
Por Alex Sandro Alves
Há uma estranha ironia na forma como conduzimos os nossos dias. Passamos a vida correndo contra o relógio, acumulando tarefas, planejando o amanhã e nos convencendo de que isso é o ápice da consciência. Chamamos essa rotina frenética de "estar acordado". Mas, se pararmos para observar o ritmo mecânico das nossas escolhas, talvez percebamos o oposto: viver, muitas vezes, é apenas um longo e contínuo estado de sonambulismo.
Dormir não é apenas fechar os olhos à noite; é aceitar as ilusões do dia a dia sem questionar. No sono da vida, somos levados pelas correntes do hábito, pelos medos invisíveis que nos paralisam e pelas expectativas que nem sequer fomos nós que criamos. Construímos castelos de fumaça — status, certezas, posses — e nos apegamos a eles como se fossem eternos. O cérebro disléxico sabe bem como as aparências enganam: às vezes, o que parece ser uma palavra clara à primeira vista revela-se um emaranhado de significados ocultos quando olhamos mais de perto. A vida cotidiana funciona da mesma forma. O mundo tangível é o sonho; a interpretação profunda é onde o sentido reside.
Se viver é essa espécie de transe onde tateamos no escuro, o que significa dizer que "morrer é acordar"?
A morte, longe de ser apenas o fim biológico, é o sopro que dissipa o nevoeiro. É o instante divino em que as ilusões perdem a força e a verdade se impõe sem filtros. Quando a cortina cai, as máscaras que usamos para sobreviver ao espetáculo social já não têm utilidade. Acordar é rasgar a névoa do ego e encarar a essência nua daquilo que realmente fomos — não o cargo que ocupamos, não a imagem que projetamos, mas a intensidade com que amamos, compreendemos e transformamos a nós mesmos.
No entanto, o verdadeiro desafio não é esperar pela grande transição final para só então abrir os olhos. O mistério da existência está em buscar pequenos "despertares" enquanto o sangue ainda corre nas veias.
Para quem escreve — e para quem lê com a alma de quem desformula o mundo —, acordar antes da hora é um ato de coragem. É questionar as certezas prontas, desaprender as regras automáticas e enxergar a beleza e a dor com a clareza de quem sabe que a noite do mundo é passageira. Morrer para a ignorância, morrer para o orgulho e para a superficialidade é a única forma de começar a despertar ainda aqui.
Que não precisemos do fim da jornada para perceber que passamos a vida inteira sonhando. Que saibamos, no silêncio de cada escolha presente, abrir os olhos para o que realmente importa.
Fim
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