Unidos pela dor e o jogo


O cheiro de antisséptico e o ruído ritmado das bombas de infusão eram o pano de fundo de toda terça-feira. Na sala de quimioterapia, o contraste entre os dois era evidente, mas o tabuleiro de madeira nobre entre as poltronas igualava o ambiente.

​— Sua vez, Roberto. E não adianta encarar o cavalo como se ele fosse mudar de casa sozinho.

​— Estou pensando, Arthur. Quem tem pressa come cru. E, no nosso estado, pressa é uma piada de mau gosto.

​Roberto, ajustando a manta simples sobre as pernas, moveu a torre com dedos firmes. Ele era professor do ensino público; Arthur, um investidor que acumulou mais dígitos na conta bancária do que dias restantes de vida. Ambos tinham doze meses no cronômetro. O diagnóstico os uniu; o xadrez os manteve inteiros.

​— Jogada audaciosa — murmurou Arthur, inclinando-se com cuidado. A medicação o deixava pálido, mas os olhos brilhavam com a análise táctica. — Sabe que essa defesa deixa seu rei exposto em três lances, não sabe?

​— Deixo o rei caminhar. Um rei que não se arrisca não merece o respeito dos peões.

​— Poético, mas financeiramente e estrategicamente burro — Arthur sorriu, o primeiro sorriso do dia, e avançou o bispo. — Pronto. O xeque virá no próximo encontro. Não temos tempo para terminar hoje.

​A partida durava dias. A cada sessão de quimioterapia, dois ou três lances eram executados com a precisão de quem joga pela própria sanidade. O tempo passava entre o pingar do soro e o estalo das peças de madeira.

​Três meses depois, em uma tarde fria, o inevitável aconteceu no tabuleiro. Arthur cerrou o cerco, sacrificou uma torre com frieza cirúrgica e deitou o rei de Roberto.

​— Xeque-mate — disse Arthur, encostando a cabeça no apoio da poltrona, respirando fundo. — Uma vitória limpa, meu amigo.

​Roberto olhou para o tabuleiro por um longo minuto. Não havia frustração em seu rosto, apenas uma serenidade profunda. Ele pegou o rei negro derrotado e o colocou delicadamente ao lado de um peão capturado no início da partida.

​— É uma bela vitória, Arthur. Mas sabe de uma coisa? No fim do jogo, tanto o rei quanto o peão vão para a mesma caixa.

​Arthur olhou para as duas peças juntas na mesa lateral. A frase ecoou no silêncio da sala, mais pesada que qualquer diagnóstico médico. Ele abriu a boca para rebater com sua costumeira lógica pragmática, mas apenas assentiu em silêncio.

​Menos de seis meses se passaram até a poltrona ao lado amanhecer vazia. Roberto se fora primeiro.

​Arthur resistiu por mais algum tempo, cercado pelo conforto do melhor hospital da cidade, mas a doença não aceitava subornos. Em seu último dia, deitado em uma cama espaçosa com vista para a metrópole que um dia ajudara a construir, ele pediu à enfermeira que pegasse a caixa de madeira que guardava todas as peças do jogo de xadrez sobre a mesa de cabeceira.

​Com os dedos fracos, Arthur abriu a tampa. Lá dentro, misturados sem qualquer distinção de marfim ou ébano, nobreza ou plebe, repousavam os reis, as torres e os peões, enfim todas as peças.

​Ele sorriu fraco, fechando os olhos enquanto a respiração desacelerava, ouvindo a voz do professor ecoar uma última vez na mente: no fim do jogo, vão todos para a mesma caixa.

Fim

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