Eu sempre ouvia nos tempos da faculdade que o bom é inimigo do ótimo. Com as décadas que se seguiram as pessoas sejam nos relacionamentos familiares ou de trabalho a busca exagerada por agradar os outros virou uma batalha inglória, fadada ao insucesso, por isso resolvi escrever este post.
O que fazer quando o seu melhor não é suficiente para os outros?
Você passou noites estudando, entregou o projeto antes do prazo, se dedicou a ouvir a pessoa amada, ajustou detalhes que ninguém mais perceberia — e ainda ouviu, direta ou indiretamente: “poderia ser melhor”. Ou pior: sentiu que todo o seu esforço passou despercebido, como se nunca tivesse sido o bastante. Se essa sensação de “meu melhor não vale” já te apertou o peito, saiba: você não está sozinho — e essa dor não é um sinal de que você é insuficiente.
Como profissional da educação, da saúde e terapeuta holístico, vejo essa queixa aparecer em nas redes sociais, e na minha rotina seja de trabalho ou encontros com amigos e colegas de trabalho há anos: são desabafos de profissionais que batem metas mas nunca recebem reconhecimento, em estudantes que se matam de estudar e não alcançam a nota esperada, em pessoas que se anulam em relacionamentos para tentar “ser o suficiente” para alguém que nunca está satisfeito. O erro quase nunca está no seu esforço: está na forma como você liga o seu valor como ser humano à aprovação alheia.
Abaixo, o que fazer quando o seu melhor não é considerado suficiente — sem cair na autodepreciação, sem se forçar a ser quem você não é e sem perder a sua dignidade.
1. Primeiro: permita-se sentir a dor. Não a ignore
A primeira reação de muita gente é se repreender: “não tenho direito de ficar triste, eu devia ter feito mais”. Erro. Essa sensação de fracasso é um sinal do seu corpo e da sua mente de que você se importou — e se importar não é um defeito.
Chore, se frustre, fale com alguém que te escute sem julgar. Suprimir a dor só faz ela crescer e se transformar em raiva de você mesmo. Quando você valida o que sente, ganha clareza para decidir o que vem depois.
2. Descole o seu valor do resultado ou da avaliação alheia
Esse é o passo mais difícil — e o mais importante. O seu melhor não é definido pela nota que você tirou, pelo feedback do chefe ou pelo olhar de outra pessoa. Ele é definido por você: por quanto se dedicou, por quanto respeitou os seus limites, por quanto foi honesto consigo mesmo no processo.
Um exercício simples: pergunte-se “eu dei o melhor que podia, com a energia, o conhecimento e o tempo que eu tinha naquele momento?”. Se a resposta for sim, o resultado não muda o valor do seu esforço. O que os outros veem como “insuficiente” quase sempre reflete os seus próprios critérios, medos ou expectativas — não a sua real capacidade.
3. Pergunte: suficiente para quê? Para quem?
Muitas vezes, corremos atrás de um “suficiente” que nunca definimos. Você quer ser suficiente para o seu chefe que nunca elogia ninguém? Para a mãe que sempre compara você aos outros? Para um parceiro que só demonstra afeto quando você atende às suas exigências?
Quando o critério de “suficiente” está nas mãos de outra pessoa, você nunca vai chegar lá. Pessoas com expectativas infinitas, que nunca estão satisfeitas, não vão mudar porque você se esforce mais. Elas vão apenas exigir mais — e você vai se esgotar tentando alcançar uma meta que se move toda vez que você se aproxima.
4. Atenção: quando a exigência é abusiva, não é sobre o seu melhor
Há uma linha tênue entre “posso melhorar” e “estou sendo abusado”. Se você ouve frases como “você nunca faz nada direito”, “ninguém mais iria te aguentar” ou se sente obrigado a abandonar os seus valores, a sua saúde ou os seus sonhos para “ser o bastante”, pare: isso não é sobre a sua suficiência. É sobre controle emocional.
Em relacionamentos tóxicos, ambientes de trabalho abusivos ou famílias disfuncionais, a sensação de “nunca ser o bastante” é uma ferramenta de manipulação. Nesse caso, o problema não é o seu melhor — é que a outra pessoa não quer que você se sinta suficiente, para manter você dependente da aprovação dela. Aqui, a solução não é se esforçar mais: é se afastar.
5. Ajuste o que pode, aceite o que não pode
Depois de processar a dor e separar o que é seu do que é do outro, é hora de agir com racionalidade:
- Se o feedback for justo, construtivo e vier de alguém que te quer bem: use-o para crescer. Melhorar não significa que você era insuficiente antes — significa que você pode ser ainda melhor amanhã.
- Se a exigência for injusta, abusiva ou inatingível: aceite que você não pode controlar o que os outros pensam ou esperam de você. E isso não é uma derrota. É o começo da sua liberdade emocional.
6. Reconstrua o seu próprio critério de “suficiente”
O último passo é deixar de definir o seu valor por olhares de fora e criar os seus próprios parâmetros. O que é suficiente para VOCÊ?
- Para você, um dia bom pode ser ter trabalhado com dedicação e ainda tido tempo para descansar — não ter batido todas as metas impossíveis.
- Para você, um relacionamento bom pode ser de respeito e escuta mútua — não de se anular para agradar.
- Para você, ser suficiente pode ser simplesmente ser quem você é, com as suas falhas e as suas qualidades.
Quando você define o seu próprio “suficiente”, ninguém mais pode tirar isso de você. O esforço que você faz deixa de ser uma corrida para aprovar o outro e passa a ser um presente para si mesmo.
Para fechar
Ninguém é obrigado a ser perfeito. Ninguém é obrigado a ser o suficiente para todo mundo. O seu melhor, mesmo que não seja o bastante para alguns, sempre será o bastante para as pessoas que realmente te querem bem — e, o mais importante: deve ser o bastante para você.
Se essa sensação persistir, não hesite em buscar ajuda de um profissional. Cuidar da sua saúde emocional não é um luxo. É a forma mais honesta de respeitar o seu próprio esforço.
Escrito por Alex Sandro Alves, licenciado em Ciências Biológicas, bacharel em Farmácia, terapeuta holístico com foco em oligoterapia, florais de Bach, radiestesia e blogueiro nas horas vagas.
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10. STERN, Robin. O efeito gaslighting: como identificar e sobreviver à manipulação oculta que outras pessoas usam para controlar sua vida. Tradução de Laura Teixeira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2019.
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