O Dom da Cabeça de Vento

O Dom da Cabeça de Vento
 
No Cerrado, quando a seca aperta e o sol queima o capim até ficar cor de telha velha, o silêncio fica cheio de medo. Todo mundo sente: o fogo vem. É só uma questão de tempo, de vento, de um cigarro perdido ou um raio que cai sem chuva.
 
Quem carregava esse peso no bico era Zé, o sabiá-laranjeira. Morava no alto do maior pé de pequi da região, e sabia de tudo. Sabia quantos dias faltavam para a primeira chuva (vinte e sete, com margem de erro de três), sabia onde o lobo-guará fazia a toca, sabia que o riacho ia secar em dez dias se não chovesse. E por saber tudo, Zé não dormia direito. Passava as noites olhando o horizonte, esperando a primeira fumaça, sofrendo por antecipação por todos os outros.
 
Do outro lado do campo vivia Dona Cotinha, uma ema alta de penas cor de areia, olhos grandes e sempre meio arregalados como se estivesse perpetuamente surpresa com o mundo. Os outros animais diziam que ela tinha cabeça de vento, que era boba como porta de celeiro, que se falasse com ela de perigo ela achava que era brincadeira. E era verdade, em partes.
 
Quando Zé gritava do alto do pequi que o riacho estava secando e todos deviam correr para encher os seus recipientes, Dona Cotinha ia sim — mas parava no caminho para cumprimentar um besouro que atravessava a vereda, para admirar o reflexo do sol na poça d’água, para colher uma flor amarela que tinha nascido no meio das pedras. Quando chegava, quase não tinha água sobrando. Enchia o papo devagar, voltava para casa com um terço do que os outros levavam, e não reclamava. “É o suficiente para hoje”, dizia, feliz por ter visto o besouro.
 
Uma vez o lobo-guará, esperto como só ele, tentou enganá-la: disse que do outro lado da serra havia um banquete de frutas de lobeira maduras, doces como mel, e que queria dividir com ela. Na verdade, ele queria levá-la para um trecho isolado de mato, onde ninguém veria. Dona Cotinha topou na hora. Saiu caminhando com passos largos, mas parou a cada dez metros para comer um talo de capim mais macio, para dançar com um grupo de borboletas amarelas, para correr atrás de um gafanhoto que pulava na sua frente. Chegou ao lugar combinado três horas depois. O lobo, impaciente, já tinha desistido e ido caçar ratos no campo. Ela olhou para os lados, não viu ninguém, comeu um punhado de capim que achou especialmente gostoso e voltou para casa cantarolando uma música que ela mesma tinha inventado. “Que passeio maravilhoso”, disse para o tucano que encontrou no caminho. O tucano só balançou a cabeça, bico amarelo se mexendo de desdém: “Essa ema não tem um neurônio sequer”.
 
Até que chegou o dia do pânico.
 
Um quati veio correndo da região norte, respiração ofegante, gritando que o fogo tinha pegado em uma fazenda vizinha. Era grande, alimentado pelo vento norte seco, e ia chegar ali em menos de dois dias. Não tinha como fugir a tempo: a única rota segura passava por um campo aberto onde predadores rondavam a qualquer hora.
 
Zé calculou tudo no ar, voando de um lado para outro: velocidade do fogo, direção do vento, distância até a mata fechada. A conclusão foi a pior possível: se o vento não mudasse, iam queimar todos. Ele gritou o aviso até ficar rouco.
 
O mundo desabou. O tucano voava de galho em galho gritando “vamos morrer! vamos morrer!”, as capivaras choravam baixinho na margem do riacho quase seco, o lobo-guará já planejava roubar os ovos dos ninhos abandonados enquanto todos fugiam. Ninguém dormiu naquela noite. O medo era mais forte que o cansaço, mais forte que a fome. Cada estalo de galho seco parecia o fogo chegando, cada brisa mais forte parecia trazer o cheiro de cinza.
 
Dona Cotinha ouviu o alvoroço. Saiu do seu ninho de capim, bocejando, e perguntou para um quati que passava correndo o que tinha acontecido.
 
— Fogo! — gritou o outro, sem parar. — Vai chegar amanhã!
 
Dona Cotinha acenou com a cabeça, como se tivesse entendido tudo.
 
— Ah, que bom — disse ela. — O fogo deixa o chão quentinho para dormir.
 
E voltou para o seu ninho. Deitou a cabeça nas asas, fechou os olhos e dormiu como uma pedra. Sonhou que estava chovendo capim novo do céu, verde e macio, e que ela podia comer o quanto quisesse sem ninguém para reclamar.
 
No dia seguinte, o sol nasceu mais quente ainda. Todos estavam exaustos, olhos inchados de tanto chorar e ficar acordados, preparando os seus poucos pertences para uma fuga que provavelmente ia acabar mal. Zé já estava no alto do pequi, olhando fixamente para o horizonte norte, quando viu algo que fez o seu coração quase parar: a fumaça, que vinha reta na direção deles, começou a se desviar para o leste. O vento tinha mudado. De repente, sem aviso, sem que ninguém tivesse previsto.
 
— PASSOU! — gritou ele, tão alto que o seu bico doeu. — O VENTO MUDOU! O FOGO VAI PARA A SERRA! ESTAMOS SALVOS!
 
Houve um grito de alívio tão forte que até os insetos pararam de zumbir por um segundo. Todos caíram sentados no chão, exaustos, chorando de felicidade, rindo sem graça de tanto medo que tinha sido para nada. Dois dias de sofrimento, de noites sem dormir, de planos e medos — e no final, o perigo tinha passado sozinho.
 
Zé pousou no galho mais baixo do pequi, o coração ainda batendo forte, e viu Dona Cotinha saindo do ninho, esticando as pernas longas, bocejando tão fundo que quase abriu o bico até a nuca. Ela olhou para todo mundo sorrindo, abraçando uns aos outros, e arregalou os olhos.
 
— Nossa, que festa! — disse ela, caminhando na direção deles. — O que aconteceu de tão bom?
 
Alguém contou, rindo, sobre o fogo, sobre o vento que tinha mudado, sobre como todos tinham passado a noite em pânico. Dona Cotinha ouviu tudo com atenção, balançando a cabeça.
 
— Nossa! — disse ela, quando acabaram. — Que coisa assustadora! Que sorte que não veio, não é mesmo?
 
E virou as costas, caminhando na direção do campo de capim, feliz como sempre, sem nenhuma marca de medo no rosto, sem nenhum peso no coração. Parou no meio do caminho, viu uma borboleta azul e começou a correr atrás dela, dando voltas no capim seco, as penas batendo ao vento.
 
Zé a olhou por um longo tempo. Ele tinha passado duas noites sem dormir, tinha calculado, temido, sofrido por todos, tinha quase tido um infarto quando viu a fumaça se aproximar — e no final, o seu saber não tinha servido para nada. O vento tinha mudado, ele não tinha previsto, e todo o seu sofrimento tinha sido inútil. Ele só tinha carregado o peso do medo por dois dias, sem conseguir mudar nada.
 
E Dona Cotinha? Ela não tinha sofrido nada. Não porque o perigo não fosse real — era real, muito real — mas porque ela não tinha a capacidade de carregar o medo do futuro. Ela vivia só o agora: agora o sol está bom, agora o capim está gostoso, agora a borboleta é bonita. O amanhã ela não entende, por isso não sofre com ele. A sua “ignorância”, a sua “bobeira”, era na verdade um dom: ela não conseguia ver os abismos que os outros viam, e por isso caminhava por cima deles sem nem perceber.
 
Naquela noite, quando o céu ficou roxo e as primeiras estrelas acenderam, Zé cantou um canto diferente do habitual. Não era o seu canto de alerta, nem o seu canto de acasalamento. Era um canto baixo, doce e um pouco melancólico. Os outros animais ouviram em silêncio, olhando para Dona Cotinha que dormia no campo, enrolada nas suas próprias penas, um sorriso bobo no bico.
 
Ninguém mais riu dela depois daquele dia. Não com desdém, pelo menos. Às vezes, quando a seca apertava e o silêncio ficava pesado, quando o medo do futuro começava a apertar o peito de cada um, todos olhavam para ela dançando sozinha no capim, falando com os besouros, dormindo profundamente sem nenhum cuidado, e sentiam uma ponta de inveja.
 
Porque todos ali sabiam demais. Viam demais. Temiam demais. E ela, com a sua cabeça de vento, a sua ingenuidade de não entender metade das coisas ruins do mundo, tinha o dom mais raro de todos: ser feliz, de verdade, sem condições, sem cálculos, sem medo do que vem depois.
 
No Cerrado, ainda hoje, quando o vento sopra forte e traz o cheiro de fumaça, o sabiá olha para a ema que corre atrás de borboletas e pensa baixinho, para ninguém ouvir:
 
Talvez a sabedoria maior seja não saber tanto. Talvez a felicidade seja isso: ser idiota o suficiente para não ver os perigos que os outros inventam na própria cabeça, e assim, viver cada dia como se fosse o primeiro e o último, cheio de capim bom e de borboletas azuis.

Por Alex Sandro Alves para o Blog O Escritor Dislexo 

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