A Lista da Bota a brasileira


A Última Viagem: Moacir e Antônio Miguel - A Lista da Bota a brasil!

O cheiro de antisséptico e a luz fria do hospital oncológico eram os mesmos para todos, ricos ou pobres. Naquela manhã de terça-feira, Moacir, um mecânico aposentado de Minas Gerais, com suas mãos calejadas e um sorriso que parecia ter visto mais sol que tristeza, aguardava sua sessão de quimioterapia. Ao seu lado, Antônio Miguel, um magnata da indústria paulista, vestindo um pijama de seda que destoava do ambiente, folheava uma revista de economia com uma expressão de tédio e resignação. Dois mundos, duas vidas, unidos por um diagnóstico implacável: câncer terminal, com no máximo um ano de vida.

Moacir, sem cerimônia, puxou conversa. "Primeira vez aqui, seu Antônio?" Antônio Miguel, acostumado a ser tratado com formalidade, ergueu uma sobrancelha. "Não, meu caro. Infelizmente, sou cliente assíduo." Um silêncio desconfortável pairou, até Moacir, com sua simplicidade, quebrar o gelo. "Sabe, a gente passa a vida correndo, juntando, construindo... e de repente, a única coisa que importa é o tempo que resta. Meu doutor disse que tenho um ano, no máximo. E o seu?" Antônio Miguel, surpreendentemente, respondeu com um suspiro. "O mesmo. Um ano para resolver uma vida inteira de pendências."

Foi ali, entre a dor e a esperança minguante, que a amizade improvável nasceu. Moacir, que a vida toda só teve o suficiente para viver e ser um bom pai e marido, e Antônio Miguel, que teve tudo, mas era separado diversas vezes e com problemas com os filhos, descobriram um no outro o que lhes faltava. Moacir via em Antônio a chance de realizar sonhos que o dinheiro nunca lhe permitiu. Antônio via em Moacir a autenticidade e a alegria que o dinheiro nunca comprou.

"A gente devia fazer uma 'lista da bota', sabe?" sugeriu Moacir um dia"

 (Moacir era pobre e trabalhador braçal mas lia muito inclusive sobre pessoas no passado que tinham o costume de fazer uma lista do que fazer antes de literalmente morrer, ou no ditado popular:Bater as Botas).

Moacir o com os olhos brilhando continuou a falar:  "Coisas que a gente sempre quis fazer, mas nunca teve tempo, ou coragem, ou dinheiro." 

Antônio Miguel, inicialmente cético, acabou cedendo ao entusiasmo contagiante do amigo. E assim, entre sessões de quimioterapia e conversas no jardim do hospital, a lista começou a tomar forma, uma fusão dos desejos simples de Moacir e das possibilidades ilimitadas de Antônio.

A Lista da Bota 

Os meses que se seguiram foram uma corrida contra o tempo, mas também uma celebração da vida. Cada item riscado da lista era uma vitória, um momento de riso, de reflexão, de pura existência. A amizade entre Moacir e Antônio Miguel floresceu, uma prova de que as conexões mais verdadeiras surgem nos lugares mais inesperados. Eles aprenderam um com o outro: Moacir, a ousar sonhar grande; Antônio, a valorizar o simples.

01- Ver o pôr do sol nas dunas dos Lençóis Maranhenses: A primeira grande aventura. Moacir, com os olhos marejados, viu o mar pela primeira vez, e Antônio, acostumado a paisagens luxuosas, se emocionou com a beleza crua e imponente das dunas. A areia fina entre os dedos, o vento no rosto, o sol se pondo em tons de laranja e roxo – um espetáculo que os fez esquecer a doença por um instante.

02- Comer um churrasco de chão legítimo nos pampas gaúchos: Em uma fazenda tradicional, eles se deliciaram com a carne assada lentamente, o cheiro de fumaça e a hospitalidade gaúcha. Antônio, que tinha chefs particulares, descobriu o sabor da simplicidade e da camaradagem. Moacir, um bom mineiro, aprovou cada pedaço.

03- Assistir a um jogo no Maracanã: O sonho de Moacir. Ver o "Mais Querido" jogar no templo do futebol. A energia da torcida, os gritos, os gols – Moacir chorou de emoção, e Antônio, pela primeira vez em anos, sentiu-se parte de algo maior que seus negócios, vibrando com a multidão.

04- Pedir perdão a uma pessoa do passado: Este foi o item de Antônio. Uma tarefa difícil, que exigiu coragem e humildade. Ele procurou sua primeira esposa, a quem havia magoado profundamente. O encontro foi tenso, mas o perdão, ainda que parcial, trouxe uma paz que Antônio nunca imaginou ser possível. Moacir o acompanhou, oferecendo apoio silencioso e um abraço apertado no final.

05- Fazer um safári fotográfico no Pantanal: A bordo de um barco, observaram jacarés, capivaras e uma onça-pintada à distância. Moacir, maravilhado com a vida selvagem, e Antônio, com sua câmera de última geração, capturando a beleza intocada da natureza.

06- Dançar tango em Buenos Aires: Em uma milonga tradicional, Moacir, com seu jeito mineiro, e Antônio, com sua rigidez, se deixaram levar pelo ritmo. Riram das próprias desajeitadas tentativas, mas sentiram a paixão e a cultura argentina pulsando.

07- Navegar pelo Rio Amazonas: A bordo de um pequeno barco, sentiram a imensidão da floresta, a força das águas e a simplicidade da vida ribeirinha. Uma jornada de autoconhecimento e admiração pela natureza, onde o tempo parecia ter outro ritmo.

08- Visitar as Cataratas do Iguaçu: Testemunharam a força avassaladora da natureza, a beleza das quedas d'água e a energia que emana do local. Um espetáculo que os deixou sem palavras, sentindo a grandiosidade da criação.

08- Aprender a fazer pão de queijo autêntico em Minas Gerais: Na cozinha da casa de Moacir, Antônio aprendeu a arte de sua terra natal, compartilhando segredos de família e risadas. O cheiro do pão de queijo assando preencheu a casa com afeto.

09- Experimentar a culinária peruana em Lima: Uma explosão de sabores e temperos, descobrindo a riqueza gastronômica do Peru. Ceviches, lomo saltado, pisco sour – Antônio, um gourmet, e Moacir, um apreciador, se deliciaram com cada prato.

10- Voar de balão na Capadócia Brasileira (Chapada dos Veadeiros): Ver o nascer do sol sobre a paisagem mística do cerrado, sentindo a liberdade e a leveza do voo. O mundo lá embaixo parecia um tapete verde e dourado.

11- Participar de um festival folclórico no Nordeste: Mergulharam na cultura vibrante, nas cores e nos ritmos do Brasil profundo. Moacir, em casa, e Antônio, um observador fascinado, dançaram forró e provaram comidas típicas.

12- Conhecer Machu Picchu: A cidade perdida dos Incas, um lugar de mistério e história, que os fez refletir sobre a passagem do tempo e a grandiosidade das civilizações antigas. A energia do lugar era palpável.

13- Pescar no Araguaia: Uma tarde tranquila à beira do rio, compartilhando histórias e silêncios, como velhos amigos. Moacir ensinou Antônio a iscar o anzol, e Antônio, pela primeira vez, sentiu a paciência da pesca.

14- Visitar uma vinícola no Vale dos Vinhedos (RS): Apreciaram bons vinhos, aprenderam sobre a produção e brindaram à vida e à amizade. Antônio, um conhecedor, e Moacir, um aprendiz entusiasmado.

15- Andar de trem pela Serra do Mar (PR): Uma viagem cênica, apreciando a Mata Atlântica e a engenharia da ferrovia. As paisagens deslumbrantes e os túneis escuros criaram uma atmosfera de aventura.

16- Fazer um mergulho em Fernando de Noronha: Exploraram a vida marinha exuberante, um mundo de cores e silêncio sob as águas cristalinas. Moacir, que nunca havia mergulhado, ficou maravilhado com a beleza subaquática.

17- Visitar o Salar de Uyuni na Bolívia: O maior deserto de sal do mundo, um lugar surreal que os fez sentir como se estivessem em outro planeta. As fotos que tiraram, com as perspectivas distorcidas, viraram motivo de muitas risadas.

18- Assistir a um show de bossa nova no Rio de Janeiro: Uma noite de música suave e poesia, celebrando a alma carioca. Em um barzinho em Ipanema, deixaram-se levar pelas melodias e letras que falavam de amor e saudade.

19- Cozinhar para a família de Moacir: Antônio, acostumado a ser servido, experimentou a alegria de cozinhar e compartilhar uma refeição simples e cheia de afeto. A gratidão nos olhos da família de Moacir foi um presente para Antônio.

20- Visitar o Cristo Redentor ao nascer do sol: Ver o Rio de Janeiro acordar sob a bênção do Cristo, um momento de paz e contemplação. A cidade maravilhosa se revelava em tons dourados, e eles sentiram a energia da fé e da esperança.

21- Fazer um tour pelas cidades históricas de Minas Gerais (Ouro Preto, Tiradentes): Mergulharam na história do Brasil colonial, apreciando a arquitetura barroca e as lendas locais. Moacir, um guia orgulhoso, e Antônio, um estudante atento.

22- Participar de uma roda de samba no Rio de Janeiro: Sentiram a energia contagiante do samba, cantando e batucando com a comunidade. A alegria genuína do povo carioca os envolveu em uma festa inesquecível.

23- Visitar o Deserto do Atacama no Chile: Observaram o céu estrelado mais limpo do mundo, um espetáculo que os fez sentir a imensidão do universo. Passaram horas olhando as estrelas, conversando sobre a vida e o que viria depois.

24- Fazer um passeio de jangada em Porto de Galinhas (PE): Navegaram pelas piscinas naturais, observando os peixes coloridos e a beleza do litoral nordestino. A simplicidade da jangada e a beleza do mar os conectaram com a natureza de forma profunda.

25- Aprender a tocar um instrumento musical: Moacir escolheu o violão, Antônio, o piano. Momentos de aprendizado e risadas, descobrindo novos talentos e a alegria da música. As melodias, ainda que imperfeitas, eram a trilha sonora de sua amizade.

26- Escrever uma carta para si mesmos no futuro: Refletindo sobre a jornada, os aprendizados e a importância da amizade. Selaram as cartas, prometendo que, de alguma forma, elas seriam lidas.

27- Plantar uma árvore juntos: Um símbolo de vida, esperança e um legado para o futuro. Em um pequeno sítio, plantaram um ipê, imaginando suas flores colorindo a paisagem por muitos anos.

28- Visitar o Glaciar Perito Moreno na Patagônia Argentina: Testemunharam a grandiosidade do gelo, a força da natureza e a beleza intocada da Patagônia. O som do gelo se desprendendo e caindo na água era como um trovão, um lembrete da força da Terra.

29- Fazer um piquenique no Parque Ibirapuera em São Paulo: Um momento de simplicidade e tranquilidade no coração da metrópole, observando a vida passar. Comeram sanduíches e conversaram sobre tudo e nada, como velhos amigos.

30- Reconciliar-se com os filhos (Antônio): O mais difícil de todos os itens, mas o mais recompensador. Antônio, com a ajuda de Moacir, conseguiu se aproximar de seus filhos, buscando o perdão e a compreensão. As conversas foram longas e dolorosas, mas trouxeram um alívio imenso.

31- Fazer uma doação anônima para o hospital onde se conheceram: Um gesto de gratidão e esperança para outros que enfrentavam a mesma batalha. Antônio, com seu dinheiro, e Moacir, com sua sabedoria, escolheram um projeto que ajudaria muitas famílias.

32- Enterrar as cinzas na lata de fumo "Naquele Tempo" no pico do Aconcágua: O último desejo, a promessa de uma amizade eterna, cumprida por Ricardo.

33- Deixar alguma coisa de herança a alguém que sempre lhe dedicou sua própria vida social e se humilhava a servir de reconhecimento ou um muito obrigado.

O fim chegou, como prometido. Moacir partiu primeiro, em paz, com a imagem do Maracanã e das dunas nos olhos. Antônio Miguel o seguiu algumas semanas depois, com um sorriso sereno no rosto, algo que seus filhos e ex-esposas nunca haviam visto. Ele deixou uma parte significativa de sua herança para Ricardo, seu fiel secretário, e uma instrução clara: o último item da lista.

Ricardo, um homem discreto e leal, herdou não apenas dinheiro, mas um legado de amizade e redenção. Com a lata de fumo "Naquele Tempo" contendo as cinzas de Antônio Miguel e Moacir, ele embarcou na última etapa da lista. 

A viagem ao Aconcágua foi solitária, mas carregada de significado. No pico, sob o céu azul e o silêncio majestoso das montanhas, Ricardo enterrou a lata, riscando o último item da lista. 

A amizade improvável de Moacir e Antônio Miguel, selada na finitude da vida, encontrou seu descanso eterno no topo do mundo sul-americano, um testemunho de que, no final, o que realmente importa não é o que se tem, mas o que se vive e com quem se compartilha essa jornada.

FIM

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