A trilha sonora do quarto de Heleno — uma playlist de sambas melancólicos tocados por um cavaquinho solitário — faz que nosso personagem principal a relembrar algumas cena de sua vida como em flashback em tons de sépia.
O Estigma do Verbo
Anos 90. Pátio de uma Faculdade de História.
Heleno, aos 20 anos, usa óculos de aros grossos e carrega uma pasta de couro gasta. Ele se aproxima de um grupo de colegas que riem perto do bebedouro.
Beto: "...e aí eu disse pra ela: 'O importante é viver o momento!'"...
Heleno (interrompendo com um sorriso gentil): "Na verdade, Beto, essa sua busca pelo imediatismo é apenas um mecanismo de defesa freudiano para mascarar a angústia da finitude.
Estatisticamente, casais que ignoram o planejamento futuro têm 70% mais chances de divórcio em cinco anos. Eu li o artigo hoje cedo."
O silêncio cai como uma bigorna. Beto fecha o rosto. Uma das garotas olha para o relógio de pulso que nem está funcionando.
Beto: "Gente... esqueci que tenho que pegar um livro na biblioteca. Vamos?"
Em trinta segundos, Heleno está sozinho. Ele cheira as próprias axilas, discretamente. Nada. Ele é limpo. Ele é graduado. Ele é cortês. Mas o vazio ao seu redor é instantâneo.
A Missa do Constrangimento
Anos 2000. Interior de uma Igreja Matriz.
Heleno, agora um homem de 1,65m, vestindo uma camisa polo impecavelmente passada, senta-se no meio de um banco comprido.
À medida que as pessoas entram, elas olham para ele, fazem menção de sentar, mas algo no brilho de seus olhos — uma prontidão para o diálogo sincero — as faz recuar.
Uma senhora senta ao seu lado. Heleno se vira, educado.
Heleno: "Bom dia, Dona Zulmira. A senhora sabia que essa liturgia de hoje tem raízes no paganismo agrário do século IV? É fascinante como a instituição adaptou ritos de fertilidade para o controle social das massas, não acha?"
Dona Zulmira arregala os olhos, faz o sinal da cruz e, sem dizer uma palavra, levanta-se e vai para o fundo da igreja, preferindo ficar de pé a ouvir a "verdade" de Heleno. Em cinco minutos, o banco de Heleno é uma ilha de madeira vazia em um mar de fiéis espremidos nos outros assentos.
Cena Close-up: A câmera foca no rosto de Heleno. Não há raiva, apenas uma confusão profunda. Ele olha para as mãos. Ele se sente como se tivesse uma aura invisível de espinhos.
O Balcão da Solidão
Presente. Uma lanchonete de rodoviária, luz fluorescente zumbindo.
Heleno agora tem fios brancos na têmpora. Ele senta-se em um banquinho do balcão. Um homem senta ao lado e pede um café. Heleno sente o impulso. A garganta coça. Ele sabe que se falar sobre a insalubridade do óleo da fritura ou sobre a solidão inerente ao viajante moderno, o homem irá embora.
O homem olha para Heleno. Heleno abre a boca... e a fecha.
Heleno (em pensamento): "Se eu falar, ele vai notar que eu existo. E se ele notar que eu existo, ele vai querer fugir de mim. A maldição não é o que eu digo, é o que eu sou."
Heleno se levanta antes mesmo de pedir seu sanduíche. Ele deixa uma nota de cinco reais sobre o balcão pelo gareafa d'água que nem tomou e caminha para o canto mais escuro da sala de espera, onde não há ninguém.
Heleno abre seu diário de anotações acadêmicas. Ele escreve:
"A sinceridade é o ácido que corrói os laços sociais. O mundo não quer a verdade; o mundo quer o eco de suas próprias ilusões. Durante décadas, tentei ser a ponte, mas descobri que sou o abismo.
Se o meu destino é ser evitado, eu antecipo o movimento. O exílio não é mais uma punição imposta por eles; é a minha única forma de dignidade."
Ele olha para a multidão que embarca no ônibus. Ninguém o vê. Ninguém o evita, porque ele não deu a chance de ser notado. Pela primeira vez, Heleno sorri, um sorriso triste e vitorioso.
Heleno coloca os fones de ouvido e mergulha em um livro denso de sociologia. Numa rodoviária lotada e, no centro de tudo, o pequeno círculo de cadeiras vazias ao redor do homem que falava demais — e que agora, finalmente, aprendeu o peso do silêncio.
FIM
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