O Último Elo - Um conto com Ataliba



🌀 O Último Elo — Um Conto com Ataliba

Na praça central de uma cidade que parecia sempre apressada demais para sentir, o  filósofo Ataliba se sentava todas as tardes sob a sombra de uma figueira. Seus olhos, profundos como poços de tempo, observavam o mundo com uma paciência que só os que já viram demais conseguem cultivar.

Certa tarde, um grupo de jovens se aproximou. Vinham com celulares nas mãos, fones nos ouvidos e uma inquietação que não sabiam nomear. Ataliba os recebeu com um sorriso sereno e um convite:

— Sentem-se. Hoje quero falar sobre algo que está desaparecendo, como as borboletas em cidades de concreto: a reciprocidade.

Os jovens se entreolharam, curiosos. Um deles, chamado Lucas, perguntou:

— Reciprocidade? Tipo... fazer algo por alguém e esperar que façam o mesmo?

Ataliba que estava em pé, balançou a cabeça lentamente.

— Não exatamente esperar. Reciprocidade não é uma transação. É uma dança. É quando dois corações se reconhecem e se movem juntos, mesmo sem música. É oferecer sem calcular, e receber sem exigir.

— Mas hoje em dia ninguém tem tempo pra isso — disse Júlia, mexendo no celular. — Todo mundo só pensa em si.

Ataliba olhou para o céu, como se buscasse uma resposta nas nuvens.

— E é por isso que estamos adoecendo. A falta de reciprocidade transforma relações em contratos frios. Amizades viram conveniências. Amores viram jogos. E no fim, todos se sentem sozinhos, mesmo cercados de gente.

— Mas o que acontece com quem dá e nunca recebe? — perguntou Rafael, com um tom de dor escondido.

— Essa pessoa se esvazia — respondeu Ataliba. — Porque dar sem retorno constante é como regar uma planta que nunca floresce. A alma murcha. E quando muitos murcham ao mesmo tempo, nasce uma geração que não sabe mais como confiar.

Silêncio. Até os pássaros pareceram respeitar aquele momento.

— Então o que fazemos? — perguntou Júlia, agora com o celular guardado.

Ataliba sorriu. Era o sorriso de quem sabia que a pergunta certa vale mais que mil respostas.

— Comecem pequenos. Observem quem está ao lado. Perguntem-se: “O que essa pessoa precisa que eu posso oferecer?” Pode ser tempo, escuta, afeto, até silêncio. E quando receberem algo, reconheçam. A gratidão é o solo onde a reciprocidade floresce.

Os jovens se levantaram, diferentes de quando chegaram. Não mais apressados, mas atentos. E Ataliba, como sempre, ficou ali, sob a figueira, esperando o próximo coração disposto a ouvir.

FIM 

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