🌪️ O Silêncio de Otávio
Otávio sempre foi um homem de palavras. Não por profissão, mas por natureza. Tinha opinião sobre tudo — política, religião, comportamento — e não hesitava em expressá-la. Para ele, conversar era como respirar: necessário, espontâneo, vital.
Mas com o tempo, algo mudou.
Certa manhã, enquanto tomava café em sua padaria favorita, ouviu uma conversa entre dois jovens na mesa ao lado. Um deles dizia:
— Cara, você viu o que aquele escritor postou ontem? Foi cancelado em menos de uma hora. Nem deu tempo de se explicar.
Otávio franziu a testa. Cancelado? Por uma frase?
Naquela semana, começou a reparar mais. Na internet, nas ruas, nas rodas de amigos. Palavras eram armas. Um comentário mal interpretado virava manchete. Uma piada fora de hora, motivo de repúdio. E o que mais o assustava: não havia espaço para o erro, nem para o arrependimento. A palavra dita não voltava. E o perdão parecia ter sido arquivado.
Otávio, então, fez algo que nunca imaginou: calou-se.
Não por medo, mas por respeito. Começou a observar mais e falar menos. Descobriu que o silêncio também comunica — e às vezes, com mais sabedoria. Percebeu que nem toda opinião precisa ser dita, que escutar é uma arte esquecida, e que o mundo não precisava de mais vozes, mas de mais consciência.
Passaram-se meses. Seus amigos estranharam.
— Você tá diferente, Otávio. Tá mais quieto.
Ele sorria, com serenidade nos olhos.
— É que aprendi que falar é fácil. Difícil é entender o impacto do que se fala.
Otávio não deixou de ser quem era. Continuava pensando, refletindo, discordando. Mas agora, antes de abrir a boca, abria o coração. E se perguntava: isso vai construir ou destruir?
Porque em tempos de cancelamento, ele escolheu cultivar o cuidado. E descobriu que, às vezes, o silêncio é o grito mais sábio.
FIM
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