O Opinista


🕷️ O Opinista

Enzo Bento não hesitava. Nunca.  
Enquanto o mundo cambaleava entre dúvidas e relativismos, ele se erguia como uma torre de convicções. Alto, magro, com olhos fundos e uma barba que parecia desenhada com carvão, Enzo era conhecido nas redes como O Opinista — dono de um vlog dark, onde a iluminação era propositalmente precária, a trilha sonora sempre dissonante, e os temas... incômodos.

Toda semana, ele respondia perguntas enviadas para seu e-mail: oopinista@oopinista.com.  
Assuntos variavam de política a filosofia, de culinária vegana a teorias da conspiração. E Enzo nunca dizia “não sei”. Sua marca era a certeza.  
> “A dúvida é o refúgio dos fracos,” dizia ele, encarando a câmera com um olhar que parecia atravessar a tela.

Seus vídeos começavam sempre com a mesma frase:  
> “Aqui quem fala é Enzo Bento, o Opinista. Se você quer conforto, vá ouvir Raul Seixas. Aqui, você vai ouvir verdades.”

Raul Seixas era seu antagonista filosófico. Enzo o citava com desprezo:  
> “Esse papo de ‘não ter opinião formada sobre tudo’ é fuga. Raul era um poeta da indecisão. Eu sou o arquiteto da lucidez.”

📩 Um e-mail chegou numa noite chuvosa:  
> “Enzo, você acredita em alma?”  
Ele sorriu.  
> “A alma é um conceito inventado por quem tem medo de ser apenas carne. Não existe. Somos impulsos elétricos e traumas mal resolvidos.”

Mas algo começou a mudar.  
Enzo começou a receber e-mails estranhos. Sem remetente. Sem assunto. Apenas frases soltas:  
> “Você tem certeza?”  
> “E se estiver errado?”  
> “A dúvida é uma forma de liberdade.”

No início, ele ignorou. Depois, começou a responder nos vídeos, com fúria:  
> “Esses e-mails são tentativas patéticas de me desestabilizar. Eu sou o Opinista. Eu não vacilo.”

Mas os e-mails continuavam.  
E numa madrugada, ao revisar um vídeo, Enzo percebeu algo perturbador: sua imagem piscava por milésimos de segundo com o rosto de Raul Seixas, sorrindo.  
Ele congelou. Reviu o trecho. Nada.  
Mas a dúvida — pela primeira vez — se instalou.

🕳️ Na semana seguinte, seu vídeo foi diferente.  
A luz estava mais clara. A trilha, silenciosa.  
Ele olhou para a câmera e disse:  
> “Hoje, não tenho resposta. Só perguntas.”  
> “Talvez Raul estivesse certo. Talvez a liberdade esteja em não saber.”

O vídeo viralizou.  
Seguidores se dividiram. Uns o chamaram de traidor. Outros, de iluminado.  
Mas Enzo Bento desapareceu.  
O canal foi apagado. O e-mail, desativado.

📼 Meses depois, um novo canal surgiu: O Ex-Opinista.  
Sem rosto. Sem certezas.  
Apenas perguntas.

FIM 

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